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Um apelo à razão. O certo é lutar pelo Brasil ou lutar por Bolsonaro?



O presidente Jair Bolsonaro afirmou diversas vezes que "Se eu errar, a esquerda volta". A má notícia é que a primeira parte da sentença já se confirmou. Bolsonaro já errou reiteradas vezes, desde que assumiu a Presidência em janeiro de 2019.

Não adianta tentar tapar o sol com a peneira. Bolsonaro já começou aquele ano destruindo pontes com muitos daqueles que lutaram por sua vitória quando começou a sabotar o Coaf supostamente a pretexto de livrar o filho Flávio de uma investigação sobre crimes de lavagem de dinheiro num esquema de rachadinhas comandado pelo ex-PM Fabrício Queiroz.

A postura que muitos esperavam do presidente que se elegeu prometendo fortalecer o combate à corrupção decepcionou milhões de eleitores que acreditaram em suas promessas. O certo seria levar o caso adiante, com as devidas salvaguardas políticas, e concentrar esforços para elucidar o caso o quanto antes. Mas Bolsonaro preferiu o caminho da impunidade e apoiou as manobras do advogado do filho e parabenizou o presidente do STF, Dias Toffoli por ter congelado todas as investigações sobre lavagem de dinheiro no país com dados do Coaf. Novamente, milhões de eleitores entenderam que houve de fato uma acordão nos melhores moldes da velha política para blindar o filho recém eleito senador pelo Rio de Janeiro.

Na sequência, Bolsonaro teve inúmeras conversas com interlocutores de senadores para viabilizar a indicação do outro filho, Eduardo Bolsonaro, para uma vaga de embaixador em Washington. Eduardo, que havia sido eleito meses antes deputado federal por São Paulo com mais de 2 milhões de votos, passou a se dedicar integralmente á empreitada, participando de diversas reuniões com senadores. Caberia ao Senado aprovar sua indicação ao cargo de embaixador defendida pelo pai como o "filé mignon" para o filho.

Obviamente, o esforço para blindar as investigações sobre o caso Queiroz deixou Bolsonaro vulnerável e o jeito foi partir para cima da imprensa, que já havia noticiado a existência de esquemas de laranjas na eleição do ministro do Turismo, Marcelo Alvaro Antonio. Bolsonaro, acuado por investigações que não fez questão nenhuma de esclarecer, adotou o ataque como forma de defesa e destruiu pontes importantíssimas com jornalistas aliados que também ajudaram a elegê-lo.

Quando o presidente Michel Temer assumiu o governo após o afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff, pegou o país mergulhado numa forte recessão e com um PIB de negativo de -3.6. Já no seu primeiro ano completo exercício na Presidência, a economia do país avançou nada menos que 4.9 pontos percentuais, saindo de menos 3.6 para um crescimento de 1.3 pontos percentuais. O resultado poderia ter sido melhor, não fosse a manobra do ex-procurador Geral da República, Rodrigo Janot, que tentou derrubar Temer com base em um controverso acordo com o empresário Joesley Batista. As denúncias contra Temer na Câmara mobilizaram o país por quase todo aquele ano de 2017. Ainda assim, Temer conseguiu entregar um crescimento de 1.3% economia.

No ano seguinte, ano de eleição, o governo Temer foi duramente atingido por uma greve terrorista dos caminhoneiros bancada por empresários ligados a Bolsonaro. A crise de abastecimento gerada pela greve levou pequenos produtores rurais a prejuízos incalculáveis, colocou em risco a vida de pessoas em hospitais e paralisou a economia do Brasil por mais de um mês, derrubando o PIB em cerca de 1.1 pontos percentuais. Apesar disso, o governo Temer ainda conseguiu entregar um PIB positivo de 1.3% naquele ano.

Bolsonaro tinha tudo para ultrapassar a média de Temer, de quase 3% de crescimento. Como presidente eleito democraticamente, assumiu o país em 2019 com céu de brigadeiro. Inflação e juros baixos, geração tímida de empregos, abertura de empresas em franca expansão, mas preferiu gastar aquele ano em projetos pessoais, como blindar Flávio, conseguir a embaixada para Eduardo e alimentar intrigas com a imprensa para fugir de temas como Queiroz, esquemas de laranjas em campanhas do PSL e omissão no combate às milícias que prosperaram no Rio naquele ano como nunca. Para criar uma narrativa de que era vítima do estamento, passou a agir como um presidente duas caras, atacando o Congresso através da militância nas redes sociais e elogiando seus alvos em público. Resultado: entregou um PIB ridículo de 1.1%, enquanto a média de crescimento dos países vizinhos foi de 3.5% em 2019.

Ainda na área econômica, Bolsonaro recuou de suas promessas de privatizar o máximo de estatais naquele ano. Investidores internos e externos haviam formado caixa para aquisições com previsão de investimentos na ordem de bilhões em infraestrutura, petróleo e gás, fornecimento de energia, transportes e milhares de imóveis da União. No lugar de privatizar, Bolsonaro fez foi aparelhar as estatais com amigos de farda, distribuindo cargos entre aliados. Até a famigerada empresa do Trem Bala de Dilma, que era para ser simplesmente extinta por sua total inutilidade, foi aparelhada por Bolsonaro.

O ano de 2019 foi bastante propício para as privatizações e seria possível o governo se desfazer de estatais deficitárias por um ótimo valor de mercado. Além de destruir pontes com parte de seus eleitores, com o Congresso e com a imprensa, Bolsonaro simplesmente dinamitou as oportunidades de se desfazer de cabides de empregos que só dão prejuízos ao Brasil para encher estas empresas deficitárias de militares aposentados. As oportunidades perdidas não voltam mais. Não há qualquer previsão de que a economia mundial volte aos níveis de 2019 tão cedo. Para vender estatais agora, o Brasil terá que entregar o patrimônio do povo a preço de banana. Em alguns casos, terá é que pagar para que o investidor assuma algumas estatais em meio à crise que deve se estender pelos próximos 3 anos.

São fatos incontestáveis. Bolsonaro, como todos esperavam, adotaria uma postura mais condizente com o cargo, logo que assumisse a Presidência. Mas preferiu ignorar as peculiaridades do cargo e preferiu tocar o Brasil na base do personalismo, sem se importar com as consequências para o país. Garantido pelo sistema financeiro, que lucrou como nunca em 2019, Bolsonaro ainda se cercou de generais, mesmo ciente de que suas escolhas não representavam qualquer garantia de eficiência para a condução do país, a não ser causar a impressão de que estava seguro no cargo.

Mas mesmo diante de tanta falta de tato, Bolsonaro ainda tinha alguma chance de se redimir perante a sociedade. Como não aparentou ter equilíbrio para tomar decisões sensatas aos olhos da população, poderia ser mais humilde, se cercar de gente competente, se reconciliar com a imprensa, com o Congresso e com a parte da sociedade que não conseguiu trazer para seu lado durante a campanha.

Veio a pandemia do coronavírus, e Bolsonaro errou de novo. Contrariando as posturas adotadas por todos os líderes mundiais no sentido de proteger a vida de suas populações, Bolsonaro demonstrou-se um líder insensível. Para quem não demonstrou nenhuma preocupação com a economia em 2019, brigando com a imprensa e com o Congresso para jogar nuvem de fumaça sobre o caso Queiroz, gastando todo aquele ano blindando lavadores de dinheiro no Coaf e batalhando boquinha em embaixada para o filho, não cola posar de preocupado com a economia em meio à uma pandemia que está ceifando milhares de vidas.

Bolsonaro mandou o povo ir para a chuva do coronavírus, falou que muitos vão morrer de qualquer jeito e, para encorajar incautos a correr riscos, ainda tentou emplacar a cloroquina, um medicamento comprovadamente ineficaz contra a covid-19. Esta postura desagradou mais uma parcela significativa de seu eleitorado. Não há como fingir que isso não aconteceu, quando um presidente é questionado sobre centenas de mortes em um único dia e pergunta: "E dai?".

Como se não bastasse a quantidade de pontes destruídas ao longo do caminho. Bolsonaro destruiu uma das edificações que era considerada a mais cara pela maioria de seu eleitorado: o compromisso de fortalecer o combate à corrupção. A Operação Lava Jato foi praticamente destruída e a tentativa de aparelhar a Policia Federal acabou destruindo o compromisso que havia firmado com o ex-juiz Sérgio Moro.

Embora alguns simpatizantes do presidente tenham considerado o gesto de Moro uma traição, o fato é que o ex-juiz foi emparedado por uma imposição que poderia lhe custar caro: trair a confiança que havia construído ao longo de ano com setores da Polícia Federal. Moro optou por não ceder aos apelos de Bolsonaro em ultrapassar esse limite. Todos os homens públicos possuem suas fragilidades e defeitos. Moro e Bolsonaro não são exceção. O problema é que estes homens fizeram um compromisso com a sociedade para chegar onde chegaram. Se não foram capazes de agir com bom senso, de fortalecer os pilares das pontes que ergueram, pelo contrário, dinamitaram os compromissos e a confiança de boa parte da sociedade, é sinal de que não terão bom senso daqui para frente.

Moro caiu atirando e os disparos feitos contra o presidente podem, se não lhe custar o mandato, mergulhar o país numa crise similar aos últimos meses de mandato da ex-presidente Dilma Rousseff. Bolsonaro, para se manter no cargo, já deu início aos famigerados acordos com a banda podre do Congresso. Mesmo sabendo que o toma lá dá cá é um caminho sem volta, que se tornará refém da sede por dinheiro e poder dos setores mais retrógrados da política nacional, o fato é que Bolsonaro está disposto a tudo para se preservar no cargo, sem medir os custos que sua situação delicada terá para o Brasil, a economia e o povo.

Chegou o momento em que cada apoiador e admirador de Bolsonaro terá que fazer reflexões honestas. Ele terá que decidir se continua lutando por uma pessoa que gosta, respeita e admira, ou escolherá continuar lutando pelo bem do Brasil? A realidade é que Bolsonaro já não representa mais uma esperança de dias melhores, mas a certeza de caos institucional, acordos espúrios, insegurança econômica e incertezas quanto ao futuro. Cada cidadão terá que refletir sobre suas opções. Apostar no quanto pior melhor ou considerar caminhos alternativos para a nação, como a possibilidade de ver o país governado pelo vice Hamilton Mourão.

Para quem ganhou a eleição com praticamente um terço dos votos dos eleitores, a aposta pode ser perigosa. Bolsonaro afirmou diversas vezes que "Se eu errar, a esquerda volta". Como é possível afirmar, Bolsonaro já errou na economia, errou na pandemia e errou em tentar aparelhar a PF. O risco agora é que ele arraste o país para uma crise ainda mais profunda e acabe viabilizando a volta da esquerda ao  poder. Se Bolsonaro não conseguiu sequer manter erguidas as pontes que o ajudaram a chegar ao poder, como conseguirá administrar um país mergulhado na recessão, no desemprego e na crise política que começa a se agravar com a pandemia?

Por mais difícil que seja reconhecer, Bolsonaro é claramente um presidente que precisa da indulgência de seu eleitor. Torcer para que ele acerte a esta altura do campeonato é como torcer por pequenos progressos de um indivíduo que sofreu danos cerebrais em um acidente. Cada pequeno gesto de um sujeito debilitado, como beber um copo de água ou dar um pequeno passo, é comemorado. No entanto, todos sabem que não seria prudente permitir que uma pessoa nestas condições execute tarefas mais complexas, como dirigir um carro.

Embora os admiradores do presidente torçam para que ele seja capaz de pequenos gestos para que possam aplaudi-lo, manter o país sob o comando de alguém tão debilitado politicamente significa submeter o Brasil a correr riscos desnecessários e que podem custar caro lá na frente. Bolsonaro já se revelou incapaz de extrair o melhor potencial país em clima de normalidade ao longo de 2019. Permitir que ele continue a criar conflitos e buscar os caminhos mais difíceis para seu povo não parece algo prudente. 

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