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Bolsonaro teria chamado Mourão para vice para fugir de Bebiano, que estaria de olho na vaga, diz Estadão



As polêmicas envolvendo o vice-presidente Hamilton Mourão ao longo da semana são apontadas como resultantes do acúmulo de controvérsias alimentadas pelo próprio Mourão ao longo dos primeiros meses de governo do presidente Jair Bolsonaro. Esta é a conclusão da maioria dos apoiadores do núcleo do presidente, incluindo seus próprios filhos Eduardo e Carlos Bolsonaro. O vereador pelo estado do Rio de Janeiro disparou nada menos que 16 postagens nos últimos dias em seu perfil no Twitter expondo o vice aos seus seguidores.

Segundo o Estadão, o próprio Bolsonaro não estaria satisfeito com a postura de seu vice, que estaria atuando como um 'presidente paralelo' em busca de holofotes. Segundo a publicação, Bolsonaro teria afirmado que escolheu Mourão de última hora para evitar uma possível articulação de seu ex-ministro Gustavo Bebiano para ficar com a vaga de vice durante a campanha.


Segundo o Estadão, "Pouco antes de a nova ofensiva contra Mourão vir à tona, o próprio presidente fez reparos à atuação do general, durante um voo de Brasília para o Rio, em conversa com senadores e um deputado. A impressão de passageiros daquela comitiva foi a de que, para Bolsonaro, Mourão se movimenta como uma espécie de presidente paralelo, mais interessado em holofotes.

A viagem ocorreu no último dia 11, após a cerimônia para comemorar cem dias de governo. O Estado ouviu três parlamentares que estavam no voo e, sob a condição de anonimato, todos confirmaram o incômodo do presidente com o vice. Naquele dia, Bolsonaro foi ao Rio para assistir a uma palestra do pastor John Hagee e participar de um almoço do Conselho de Ministros Evangélicos do Brasil.

Descontraído, acima das nuvens, Bolsonaro apresentou ali vários problemas com o vice que, nove dias depois, apareceram nas redes sociais do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ). Ele não gostou, por exemplo, de Mourão ter aceitado fazer palestra no Wilson Center, nos EUA, no dia 9, após receber um convite dizendo que os primeiros cem dias do governo foram marcados por uma “paralisia política”. A convocação também elogiava o vice, tratado como “uma voz de razão e moderação, capaz de orientar a direção em assuntos nacionais e internacionais”.

No “voo da queimação”, como ficou conhecida aquela viagem entre os passageiros, Bolsonaro lembrou que havia convidado o general em cima da hora para ser seu vice, no ano passado, porque tinha certeza de que o então presidente do PSL, Gustavo Bebianno, queria a vaga. A convicção vinha do fato de que todo político chamado na campanha para fazer dobradinha com ele era “fuzilado” no outro dia pelos jornais. Bolsonaro concluiu, então, que Bebianno detonava todos os candidatos a vice e agia como um “traidor” para ocupar o posto.

Nomeado ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Bebianno foi demitido em fevereiro, após uma queda de braço justamente com Carlos, o filho “zero dois”, que hoje direciona sua artilharia contra Mourão. Os ataques foram puxados pelo escritor Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo, que no sábado publicou um vídeo com ruidosas críticas aos militares. Ao se referir à ala fardada do governo, Olavo disse que “cabelo pintado e voz empostada” são a herança das escolas dirigidas por “milicos”. O vídeo chegou a ser postado no canal de Bolsonaro no YouTube, mas depois foi apagado. Irônico, o vice respondeu que Olavo “deve se limitar à função que desempenha bem, a de astrólogo”.

União. No bate-papo durante a viagem de pouco mais de uma hora ao Rio, após deixar a cerimônia na qual Mourão estava a seu lado, Bolsonaro disse ter certeza de que muitos no governo agem para afastá-lo de seus filhos. Assegurou, no entanto, que ninguém conseguirá separá-lo de Carlos, do deputado Eduardo (PSL-SP) e do senador Flávio (PSL-RJ). Em entrevista ao Estado, nesta quarta-feira, Eduardo afirmou que Mourão tem causado ruído no Planalto por causa de suas declarações polêmicas.

Na prática, Olavo de Carvalho e os filhos de Bolsonaro avaliam que o vice está em campanha e quer o lugar dele. No Twitter, nesta quarta-feira, Carlos voltou a dirigir farpas a Mourão. “Vice contraria ministros e agenda que elegeu Bolsonaro presidente”, escreveu ele. Antes, o vereador já havia considerado “estranhíssimo” o alinhamento do vice com “políticos que detestam o presidente”, citando a defesa que Mourão fez do ex-deputado Jean Wyllys.

“Esse tipo de comunicação por redes sociais não contribui em nada”, afirmou o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), um dos que estavam no voo com Bolsonaro. “O governo tem muito dever de casa a fazer para ficar administrando esse tipo de confronto.” Além de Sóstenes, participaram da comitiva o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), os senadores Marcos Rogério (DEM-RO), Zequinha Marinho (PSC-PA) e Vanderlan Cardoso (PP-GO), o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e Pastor Everaldo, que comanda o PSC. O pastor se sentou ao lado de Bolsonaro no avião.

Mourão disse a interlocutores que considera “absurda e descabida” a desconfiança sobre ele. “Estou aqui para ajudar. Não sou desleal”, reagiu o vice, negando que suas ações tenham no horizonte a disputa para as eleições de 2022. “Isso não existe. Não vou me candidatar. Há muito envenenamento nessa história.”

O Planalto não quis comentar as críticas feitas por Bolsonaro na viagem do dia 11 ao Rio. Na tentativa de mostrar que não há atrito entre os dois, o presidente convidou Mourão para descer com ele, nesta quarta-feira, 24, a rampa interna da sede do governo e pôs a mão em seu ombro. “Estamos juntos”, disse.

Generais próximos de Bolsonaro tentam pôr panos quentes na crise, mas, a portas fechadas, admitem que Carlos está “incontrolável”.

Carlos Bolsonaro seria influenciado pelo astrólogo radicado na Virgínia, nos Estados Unidos. Este, por sua vez, também teria influenciado o pastor Marco Feliciano, que chegou a protocolar um pedido de impeachment contra Mourão na semana passada.

Não há qualquer dúvida de que o Brasil passa por mais uma crise institucional na qual o presidente e seu vice parecem envolvidos em polêmicas que nada contribuem para a estabilidade política e econômica do país. O governo está dividido em núcleos compostos por evangélicos, militares e bolsonaristas que se digladiam nos bastidores em busca de poder e espaço na administração pública. O problema é que os integrantes do Centrão não estão nada satisfeitos com as práticas de bastidores do governo. Há ressentimentos inconfessos sobre as críticas quanto ao que seria a velha política.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse nesta quarta-feira (24) que “ninguém explicou o que é a nova política ainda” e criticou a associação que se faz do Parlamento com a “velha política”. Maia afirmou que não se pode criminalizar todo tipo de indicação política no governo. “Não pode transformar a participação de um partido no governo em um crime, que não é”, afirmou o presidente da Câmara, citando como exemplo o número de militares no governo.

“Outro dia eu fui no Comando Militar e não tem mais general. Eles estão todos no governo”, brincou. “Isso não é velha ou nova política. Eles são quadros de grande qualidade. Agora, por que é que um político não pode ser um quadro de grande qualidade e participar do governo?”.

Em meio a tantas divisões internas, uma rede de intrigas entre o presidente e seu vice é algo que não contribuiu em nada para o bom encaminhamento das reformas que o país precisa. Diante de divisões tão profundas, qualquer governo tende a enfrentar maiores dificuldades para implementar políticas que possam tirar a economia do país do quadro de estagnação. Num quadro de crise política, eleva-se o risco de ceder a pressões para aprovar projetos importantes, algo que não parece ser um bom caminho num quadro de crise econômica.

Com informações do Estadão

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