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Até 53,2% dos brasileiros apoiam a volta do regime militar. Parabéns a todos que apostaram na destruição da classe política e da Democracia



O Brasil enfrentou um verdeiro terremoto nos últimos anos. As primeiras rupturas do sistema político brasileiro se precipitaram a partir da insatisfação da população com a praga da corrupção implementada pelos governos do PT de Lula e Dilma. As manifestações de junho de 2013 foram um sintomáticas, num fenômeno que poderia ter sido convertido em um marco de mudanças de paradigmas, após quase uma década e meia de escândalos de corrupção.

Mas no lugar de procurar sarar as feridas na Democracia, as autoridades do país correram para salvar a própria pele. Dilma, Lula e João Santana se reuniram em um horal em São Paulo para adotar estratégias de puro marketing, visando acalmar os ânimos da população enfurecida. Dilma anunciou um mega desconto nas tarifas de energia elétrica, numa trapalhada que está custando caro aos brasileiros até os dias de hoje.

Mas esta não foi a única medida tomada a toque de caixa para conter a ira da população com o estado de coisas daqueles fatídicos dias. A ex-presidente foi aconselhada a retirar todos os projetos anti-corrupção das gavetas para dar uma satisfação à sociedade. Na correira, Dilma assinou a Lei de Delação Premiada. Embora a petista tenha declarado há poucos dias que se arrependeu pelo gesto, o fato é que, não fossem as manifestações de junho de 2013, um outro fenômeno que operaria transformações profundas no cenário político nacional não teria ocorrido: a Operação Lava Jato.

Dilma não imaginava que seu gesto de desespero fosse desencadear a maior investigação sobre corrupção do mundo, levar à derrocada do PT, influenciar no processo de impeachment que custou seu mandato e levar o ex-presidente Lula para a prisão.

Mas a relação entre os fenômenos que mudaram a cara do Brasil nos últimos anos teve outros atores. Se por um lado, a figura do juiz Sérgio Moro resgatou a esperança da população na eterna luta contra a corrupção e à impunidade, outros membros do Judiciário e do Ministério Público Federal não tiveram o mesmo espírito patriótico de ajudar o país fortalecer sua Democracia diante dos desafios que se impuseram. Oportunistas de plantão viram a oportunidade de usar a credibilidade da Operação Lava Jato para destruir a classe política como um todo, sobretudo aqueles que ajudaram a expulsar o PT do poder.

Parte do MPF, liderados pela controversa figura do ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, passaram a fazer uso político da Lava Jato. Gravações combinadas na própria PGR, tomadas de depoimentos suspeitos, vazamentos seletivos e outros abusos passaram a fazer parte da rotina política do país com uma frequência acima do tolerável. Reputações foram destruídas sem que nada tenha sido comprovado contra diversos acusados. No auge do entusiasmo, Janot e seus cúmplices se aliaram aos criminosos da JBS para tentar derrubar o governo de Michel Temer. Janot e Joesley não agiram sozinhos. Contaram com a conivência de vários procuradores da República em todo o país, com ministros do Supremo Tribunal Federal e meios de comunicação de massa que tinham a JBS como maior cliente. Em tese, o ministro Edson Fachin sequer poderia ter homologado a delação de um sujeito apontado como chefe de uma gigantesca organização criminosa que prosperou durante os governos do PT de Lula e Dilma. Fachin ainda teve parte de sua campanha para o cargo de ministro do STF patrocinada pela JBS, um fato impeditivo para sua atuação no caso.

Desde então, setores da Polícia Federal, Ministério Público Federal e Supremo Tribunal Federal passaram a atuar de forma bastante questionável em termos de atribuições, numa política considerada por muitos como uma campanha orquestrada para destruir a classe política como um todo. Segundo o próprio Joesley Batista, o ex-PGR Rodrigo Janot pretendia derrubar Temer para assumir seu lugar ou poder indicar o sucessor do presidente da República, de modo a conseguir um terceiro mandato à frente do órgão que comandava. Teóricos acreditam que o Brasil superou uma tentativa de golpe do Judiciário, em conluio com meios de comunicação, setores da esquerda, segmentos do funcionalismo público, rentistas, donos de grandes fortunas e outros insatisfeitos com o fim das mamatas na era PT. Temer acabou com muitos privilégios, tirou o doce da boca de muita gente promovendo a derrubada drástica da inflação, a redução dos juros, a redução das verbas de publicidade, o fim dos repasses a movimentos sociais, artistas de esquerda, acabou com a farra dos empréstimos bilionários no BNDES, proibiu indicações políticas na Petrobras e a impôs o fim do imposto sindical obrigatório. O presidente avançou ainda sobre a máfia dos concursos, limitando o salário de servidores aprovados ao teto de R$ 5.300,00, propôs acabar com os privilégios na previdência, no Judiciário e no MPF, enfim. O fato de contrariar interesses tão poderosos levaram os grupos afetados a embarcar na conspiração de Janot, por fora da Lava Jato, com o açougueiro Joesley Batista.

Mas a campanha pela destruição total da classe política movida por estes setores que contaram com o suporte de meios de comunicação e de blogs controlados por especuladores do mercado financeiro não afetaram apenas a imagem de Temer. Toda a classe política foi dizimada do forma considerada irreversível por alguns. A sensação de que todos os políticos são corrutos entre a população é tão marcante nestes dias que antecedem as eleições de outubro, que muitos se surpreenderiam ao saber que menos de 5% dos políticos brasileiros estão envolvidos em algum esquema de corrupção comprovado. Apenas três governadores, 12 senadores e 36 deputados federais investigados na Lava Jato são réus ou alvo de inquéritos em andamento. Isto significa que a maioria dos políticos em atividade no Brasil estão livres de complicações com a Lava Jato. Dos 513 deputados, 477 não possuem inquéritos na maior investigação sobre corrupção do mundo. Dos 81 senadores, 69 estão desembaraçados, assim como 24 dos 27 governadores. Entretanto, o eleitor imagina que toda a classe política está envolvida em esquemas de corrupção. A população até se esqueceu que as maiores conquistas da sociedade ao longo das últimas décadas se originaram no Congresso, como o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Lei da Ficha Limpa, a imposição do limite do teto dos gastos públicos, etc.

A população também foi levada a crer que a classe política deveria ser formada por uma casta de anjos puros, de modo que a maioria se esqueceu que foi o próprio eleitor que escolheu seus representantes. Este é um aspecto da Democracia que ainda incomoda muita gente. O Congresso é a cara do povo e deve sim, ser composto por aqueles que o povo escolheu, independente do ideal. Ninguém espera que um eleitor de uma comunidade carente eleja um intelectual de gravatinha que aparece lá apenas em época de eleição. O povo tem o dever de escolher seus representantes entre aqueles que mais se identifiquem com sua realidade. Neste cenário, não há nada de errado com a eleição de um parlamentar gay, negro ou com baixo grau de instrução. Sua participação no Congresso, na tomada de decisões sobre o destino do país é importante para aqueles que o elegerão e depositaram nele suas esperanças de representatividade. Não há como sonhar com um Congresso suíço com um país com tantas desigualdades como o Brasil. O país, assim como a Suíça, Inglaterra ou Estados Unidos, está trilhando seu caminho como sociedade dentro de um processo civilizatório inerente ao tempo e ao próprio processo de desenvolvimento como civilização. O Brasil é pior que muitos países? Sem dúvida. Mas é muito melhor que a maioria dos países do mundo, considerando as conquistas democráticas, econômicas, a liberdade de expressão e oportunidades. Com mérito, garra, talento e determinação, qualquer cidadão pode prosperar no país, caso seja combativo, inventivo e dedicado. Apesar dos percalços, das dificuldades e das limitações, todo cidadão brasileiro é livre para opinar, prosperar e votar conforme sua vontade.

No entanto, a impressão que se tem é a de que todos estes conceitos foram distorcidos e as pessoas deixaram de enxergar a realidade. Apesar dos servidores, membros do Judiciário, MPF e a elite de aposentados consumirem mais de 90% de tudo que a União arrecada, o país ainda oferece serviços razoáveis em termos de saúde, segurança e infraestrutura, considerando o tamanho de sua população e as dimensões continentais do território. Não há como comparar os desafios do Brasil com os de países que possuem 10% do seu tamanho e população. Como civilização, é possível afirmar que o país é um copo pela metade, se comparado aos demais países do mundo. Muitos brasileiros jamais trocariam seu país por nações prósperas como a Arábia Saudita.

Mas a destruição da imagem da classe política acabou produzindo um fenômeno surpreendente.  Neste momento, faltando poucos meses para as eleições de outubro, há mais brasileiros que concordam com a hipótese de volta do regime militar do que discordam. Em onze anos em que esse tipo de pesquisa quantitativa tem sido feita por diferentes instituições, mas com o mesmo método científico, é a primeira vez que o desapreço pela democracia atinge tal estágio, diz o portal Defesa Net.

A publicação informa ainda que "Os dados são de um levantamento feito entre 15 e 23 de março, com 2,5 mil entrevistas em 26 estados (exceção foi o Amapá), pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, parte do Programa de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT). O Instituto é composto por representantes de quatro instituições acadêmicas principais (UFMG, Iesp/Uerj, Unicamp e UnB) e a pesquisa será material de estudo a ser destrinchado o ano todo.

Conforme o estudo, obtido com exclusividade pelo Valor, 53,2% dos pesquisados afirmaram apoiar um regime militar, em caso de escalda da criminalidade. Os que discordam disso somam 41,3%. Outros 5,6% não responderam ou não souberam responder".

Em relação a um quadro de muita corrupção, a implantação de um regime militar seria justificado para 47,8%. Os que divergem desse entendimento são 46,3%. Há 5,8% que não responderam ou não souberam responder.

Esse padrão de comportamento não ocorre quando os entrevistadores alteram a premissa da pergunta. Diante de uma situação de muito desemprego ou de muitos protestos sociais, a ideia de retorno do regime militar recebe menos apoio popular. Nesses dois casos, quase 7 de cada 10 brasileiro não concordam que o ato antidemocrático seria justificado (confira nos gráficos).

Liderada pelo cientista político Leonardo Avritzer, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a pesquisa captou uma série de outros indícios de enfraquecimento da democracia no Brasil. O percentual de brasileiros que afirmam estar satisfeitos ou muito satisfeitos com a democracia, por exemplo, é o mais baixo de uma série que começa em 2002: apenas 19,4%.

Em 2014, os satisfeitos ou muito satisfeitos com o regime democrático eram 38,9%. O auge do contentamento com a democracia ocorreu em 2010, quando 44,4% manifestaram algum grau de satisfação. Anteriormente, o pior resultado havia sido apurado em 2002 e era um terço maior que o atual: 30,3%.

Uma forma tradicional de medir o apreço das pessoas pela democracia é solicitando concordância ou discordância com a frase "A democracia é preferível a qualquer outra forma de governo". Desde 2002, o percentual de brasileiros que concordam com a afirmação também é o mais baixo da série, embora ainda seja majoritário: 56,1%. Em 2010, no auge, 77,4% concordavam.

Outra evidência do processo de enfraquecimento da democracia no Brasil é a queda da confiança nas instituições. A mesma pesquisa captou um conjunto de dados nessa direção.

Um dos mais impressionantes é o da avaliação do desempenho de deputados e senadores, que tradicionalmente sempre foi baixo e, ainda assim, cai sucessivamente desde 2002. Dezesseis anos atrás, o trabalho dos congressistas em Brasília era aprovado por 34,3% dos brasileiros. Essa taxa recuou para 26,2% em 2006, caiu para 19,3% em 2010, 15,8% em 2014 e, próxima do chão, é de apenas 5,4% hoje.

Tendência ainda mais acentuada foi observada em relação à Presidência da República. A aprovação de 43% em 2006-ano em que Luiz Inácio Lula da Silva, presidente de então, se reelegeu- despencou para 9,6% em 2018. Combina com a baixíssima aprovação do presidente Michel Temer captada por outras pesquisas. Algo sempre próximo a 5%, mesmo sem que a Lava Jato tenha identificado nenhum caso de corrupção durante os dois anos de governo Temer. Em off, a avaliação de procuradores da República é a de que Temer, ao puxar o tapete de Dilma e banir o PT do poder, estancou os esquemas de corrupção na administração federal. Nem mesmo a queda recorde na inflação e nos juros, o desempenho recorde na Bolsa de Valores e a recuperação da indústria e do mercado imobiliário foram capazes de minimizar o estrago feito na imagem do presidente por setores do MPF e STF saudosos dos governos do PT de Lula e Dilma, que apesar de delatada por dezenas de testemunhas, continua livre de qualquer embaraço com a Justiça.

A credibilidade do MPF e do STF tende a se deteriorar ainda mais a partir de 2019, quando Temer deixar a presidência. Após várias prorrogações de um inquérito contra o presidente, que teve inclusive seu sigilo bancário e fiscal quebrados por determinação do ministro Luis Roberto Barroso, há quase uma obrigação de incriminação do presidente, após tanta perseguição. Caso contrário, ficará comprovada mais uma vergonhosa intervenção destes setores no processo democrático brasileiro em mais um episódio de destruição de reputações. O tempo dirá.

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