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Evasão escolar é a raiz da violência no Brasil. Não é o desemprego. Trabalhador desempregado não vira bandido



O crescimento da evasão escolar durante os governos do PT pode ser apontado como um dos fatores que propiciaram a escalda da violência, da criminalidade e do número de homicídios no país ao longo da última década e meia. Ao contrário do que muitos políticos andam dizendo, aumento recorde nos níveis de desemprego durante a recessão em que Dilma mergulhou o país não pode ser apontado como a principal causa do aumento da violência. O trabalhador desempregado não é bandido. Na quase totalidade dos casos, desempregados migram para a economia informal.

Já no caso dos alunos que abandonam os estudos, a situação é bem mais preocupante que a de um desempregado. Sem qualificação ou formação adequadas, estes jovens dificilmente conseguem ingressar no mercado de trabalho. O índice de desemprego no país é de 11,8%, mas a taxa é maior para mulheres, jovens e pessoas com baixa escolaridade. É o que mostram os dados do quarto trimestre de 2017 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) trimestral divulgada este ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).



Segundo pesquisa divulgada recentemente pelo Banco Mundial: 52% dos jovens brasileiros com idade entre 19 e 25 anos perderam o interesse pela escola. Considerando que há vagas suficientes para praticamente toda a população, como explicar o fato da evasão ter saltado de 6 para até 17% durante os governos de Lula e Dilma?

A queda na qualidade do ensino pode ser um dos motivos pelos quais os alunos perdem o interesse em estudar. Neste aspecto, a queda da qualidade do ensino está mais relacionada com a qualificação dos professores, do que com outras condições das escolas. Professores desqualificados não conseguem reter os alunos em sala de aula por uma razão muito simples: não são capazes de ensinar de forma adequada, não possuem métodos, especialização ou, em muitos casos, interesse em ensinar. É comum que professores tentem transferir a culpa de seu fracasso com alguns alunos para os próprios alunos, incluindo crianças com menos de dez anos.

Sem atrativos, sem o alimento de perspectivas de dias melhores e com a sensação de que não irão conseguir nada com os estudos, muitos alunos se sentem desestimulados em frequentar as salas de aulas nada acadêmicas presentes em milhares de escolas do país. Professores negligentes permitem que os alunos façam o que bem entendem durante as aulas, enquanto organizam suas agendas, cuidam de interesses pessoais e vão à escola apenas para bater ponto. O gráfico abaixo revela que as autoridades do Rio de Janeiro foram negligentes nos últimos anos em relação à evasão escolar nas áreas mais críticas da cidade. Muitos dos políticos eleitos no Rio nos últimos 30 anos ganharam a eleição prometendo combater a violência e a criminalidade. Como se pode constatar nos dias de hoje, tudo não passou de marketing eleitoral.

Todos sabiam que uma criança fora da escola significa aumento da violência e criminalidade num futuro próximo. Foi exatamente o que ocorreu nos bairros do gráfico abaixo, que revela a negligência dos políticos do estado em relação a uma bomba relógio que, como todos sabiam, e estava prestes a explodir. A negligência dos políticos com a questão da educação ao longo dos últimos anos  ainda terá consequências para a sociedade durante muito tempo. Não apenas em relação à criminalidade, como também na deficiência de muitos em enfrentar o mercado de trabalho, a renda destes jovens e o adiamento da redução da pobreza.




No quadro abaixo, é possível observar que a evolução da violência no país nos últimos dez anos não é proporcional à elevação do número de desempregados, sobretudo entre 2014 e 2017. Embora 14 milhões de chefes de família tenham ficado sem seus empregos durante este período, o número de homicídios permanece praticamente o mesmo nestes quatro anos, na casa de 60 mil casos ao ano. A partir do gráfico, conclui-se que os homicídios já vinham aumentando mesmo antes da recessão, o que indica que a origem da violência não é o desemprego, mas sim a evasão escolar. Trabalhador desempregado é continua sendo trabalhador. O que se percebe no gráfico é que o número de homicídios cresceu junto com a evasão escolar. Pelos dois gráficos abaixo, não há como relacionar o aumento da violência ao aumento do desemprego.



O sociólogo Marcos Rolim tentou estabelecer uma relação direta entre a evasão escolar e o aumento da criminalidade. O pesquisador procurou entender os motivos pelos quais jovens de dois grupos de de idade semelhante, todos homens, pobres e criados na mesma região assumem destinos antagônicos: um grupo vira matador e o outro, trabalhador. Por quê?

Em experimento inédito no país, ele entrevistou um grupo de jovens violentos de 16 a 20 anos que cumpriam pena na Fase (Fundação de Atendimento Socioeducativo) do Rio Grande do Sul. Ao final, pediu que indicassem um colega de infância sem ligação com o crime e foi atrás dessas histórias.

Rolim esperava que prevalecessem, no grupo dos matadores, relatos de violência familiar e uso de drogas, mas outro fator se destacou: a evasão escolar (quando o aluno deixa de frequentar a escola). E, aliado a isso, a aproximação com grupos armados que "treinam" esses jovens a serem violentos.

Entre os que cumpriam pena, todos, sem exceção, tinham largado a escola entre 11 e 12 anos. E citavam motivos banais: são "burros" e não conseguem aprender, a escola é "chata", o sapato furado era motivo de chacota. Os colegas de infância continuavam estudando.

Ao comparar esses e outros casos (111 ao todo), incluindo dois grupos de presos jovens do Presídio Central de Porto Alegre, uns condenados por homicídio e outros por receptação, e alunos de uma escola de periferia sem histórico criminal, concluiu que o chamado "treinamento violento" respondeu por 54% da disposição para a violência extrema.

Em outras palavras, isso significa que sem a experiência do "treinamento violento" - aquela que ensina a manusear armas, bater antes de apanhar e exalta atos de violência - a disposição para esses crimes extremos cairia para menos da metade nos casos analisados.

"Muitos meninos que se afastam da escola são, de fato, recrutados pelo tráfico de drogas e são socializados de forma perversa. E isso provavelmente deverá se repetir se a pesquisa for reproduzida em outros locais, pois a diferença estatística foi muito forte", diz Rolim à BBC Brasil.

A conclusão prática, segundo o sociólogo, é que a prevenção da criminalidade deve levar em conta a redução da evasão escolar, aspecto que costuma ser negligenciado no Brasil quando o assunto é segurança pública.

Considerados os índices de evasão escolar, o cenário no Brasil seria, de fato, favorável à violência extrema.

Em 2013, por exemplo, uma pesquisa do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) mostrou que um a cada quatro alunos que inicia o ensino fundamental no país abandona a escola antes de completar a última série.

O Brasil figurava no estudo com a terceira maior taxa de abandono escolar entre os 100 países de maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), atrás apenas da Bósnia e Herzegovina e do arquipélago de São Cristóvão e Névis.

Razões da evasão

E por que as escolas não conseguem manter esses jovens na escola?

Embora o assunto não tenha sido foco da pesquisa, Rolim arrisca algumas possíveis explicações, a partir do contato com colegas que desenvolvem pesquisas em instituições de ensino.

A primeira, diz, é o despreparo de professores para lidar com alunos mais vulneráveis e problemáticos.

"O jovem de área de exclusão, que nunca abriu um livro e tem pai analfabeto, tem toda uma diferença de preparação, e grande parte dos professores não está preparada para lidar com ele", afirma.

Violência futura

Na visão de Rolim, o Brasil está "contratando violência futura" em escolas, prisões e nas próprias instituições policiais. Na ausência de aprendizado e com o tempo livre fora da escola, a cultura do crime alcança milhares de jovens na periferia. A maioria que comete pequenos delitos permanece oculta, longe das estatísticas. São delinquentes invisíveis, toleráveis e inofensivos aos olhos do estado. Pelo menos enquanto não matam um cidadão. 

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