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Entregar um assassino à Justiça também é um favor ao criminoso. A mudança na cultura pode salvar milhares de vidas



O Jornal O Estadão lançou uma plataforma para acompanhar a evolução no número de homicídios no país, que se encontra em franca ascensão ao longo dos últimos 8 anos, tendo atingido a casa dos 60 mil assassinatos por volta do ano de 2014.

Mas a impressão que se tem é a de que os meios de comunicação e setores da esquerda brasileira só se deram conta da trágica escalda da criminalidade no país a partir do assassinato da vereadora do PSOL, Marielle Franco.

A plataforma batizada com o sugestivo nome de "Placar da Guerra" do Estadão revela em número que o Brasil está na frente de países oficialmente em guerra, como Síria, Iraque e Afeganistão.

Na legenda, "Informação impactante que o Estadão acredita ser o primeiro passo para a mudança".

O que quase nenhum órgão da imprensa destaca é que as forças policiais de estados como o Rio de Janeiro conviveram quase em harmonia com o crime organizado ao longo das últimas décadas. Há bocas de fumo funcionando do Rio há mais de 20 anos no mesmo lugar. As milícias, apontadas como responsáveis por boa parte dos homicídios no Estado, prosperaram ao longo dos últimos dez anos de forma exponencial. Hoje, estes grupos formados por policiais, ex-policiais, bombeiros e bandidos dominam cerca de 170 regiões no Rio de Janeiro explorando serviços como comércio de gás, internet, TV por assinatura clandestina, comércio de bebidas e drogas.

É chegado o tempo de encarar os fatos. O processo civilizatório exige responsabilidade e honestidade intelectual. Aqui vai um olá para artistas, intelectuais, ativistas de direitos humanos, jornalistas e políticos que vivem alertando para a questão da criminalidade sem mencionar os traficantes de drogas. Passam mais ao largo ainda dos consumidores de drogas que abastecem o crime organizado com dinheiro usado para o aliciamento de policiais corruptos e de crianças nas comunidades, aquisição de armas e munições. A medida correta é um baseado, uma bala, um pino de cocaína, outra bala.

Nos morros, não se fabrica dinheiro, munições ou armamentos. É a própria sociedade que abastece os crime organizado, cada segmento à sua maneira. O usuário de drogas leva o dinheiro. Narcotraficantes, policiais e empresários acima de qualquer suspeita vão atrás deste dinheiro levando drogas e armas. Os criminosos aliciados pelo tráfico só saem dos morros para praticar assaltos, seja por conta própria ou a mando dos traficantes quando estes precisam fazer 'caixa', seja para honrar compromissos com fornecedores ou com os 'garantidores' de suas atividades ilícitas.

Neste universo, a própria sociedade, inclusive os moradores das comunidades dominadas, convivem diariamente com a realidade do submundo do crime. Assassinos não são alienígenas ou tubérculos que brotam do chão. Todos tem pais, mães, irmãos, vizinhos amigos e gente conivente à sua volta.

Há regras básicas de convívio numa sociedade civilizada. É preciso que autoridades, artistas, jornalistas, enfim, que todas as vozes da sociedade se ergam contra os assassinatos. É preciso lembrar a todo momento que tirar a vida de alguém, por qualquer motivo que seja, é um ato de covardia. Seja  por incapacidade de obter bens materiais ou por incapacidade de superar a ira, matar é um gesto de covardia. Tirar uma vida é coisa de covarde. Excetuando-se os casos de legítima defesa, quem mata não é um ser humano digno. É preciso lembrar a todo momento que matar é errado. Tirar a vida de alguém é um gesto de covardia que deve ser repudiado até pelo presidente da República em cadeia nacional.

É preciso lembrar ainda que, quanto mais um criminoso pratica crimes como assaltos, assassinatos e outros delitos, mais se afunda perante a Justiça e mais danos causa à sociedade como um todo. Denunciar um criminoso também é um gesto que beneficia o criminoso.

Para romper com o ciclo da violência, será preciso que a sociedade se mobilize, que promova a expansão de uma corrente do bem. A Lei e a Justiça existem. É dever do Estado aplicar a Lei aos trapaceiros que ousam violar as regras impostas a todos os cidadãos.

Diante da realidade do país neste momento do espaço e do tempo em sua caminhada como nação, em seu processo civilizatório, é preciso considerar aspectos de forma concreta. O Estado não irá conseguir promover o avanço na distribuição de riquezas da noite para o dia. Não há como criar uma lei amanhã que viabilize o acesso à condições equânimes para todo cidadão, seja sob o ponto de vista econômico, do bem estar social ou mesmo das oportunidades.

Entre cobrar soluções impossíveis e que levarão décadas para serem implementadas, ainda de forma deficitária, e educar a atual geração com uma campanha de choque de realidade, a segunda opção parece a mais viável para tentar minimizar o drama da violência que assola todo o país.

As soluções demandam desafios que, ao que tudo indica, não são apenas as autoridades do país que fingem ignorar. Uma corrente cultural como esta teria outras implicações. O fato é que há a necessidade de conscientização da sociedade de que entregar assassinos às autoridades pode ser um favor ao próprio criminoso.Quanto mais cedo, melhor. Um jovem de 20 anos, condenado à uma pena média de dez anos, terá mais chances de retornar ao convívio social ainda em idade produtiva, plenamente capaz de se reintegrar à sociedade, constituir família e viver a maior parte de sua vida de forma digna e plena. Caso este jovem continue cometendo crimes, mais difícil será sua recuperação e mais tempo permanecerá na prisão. No concurso de crimes, o criminoso será condenado com base nas penas correspondentes a cada um dos crimes. Entregar um criminoso à Justiça é um gesto humanitário mais amplo que muitos conseguem supor. Quanto menor o tempo que uma pessoa passa na prisão, maiores são suas chances de recuperação, menores os gastos do Estado com sua manutenção e mais vagas no sistema prisional.

Na legenda da plataforma do Estadão do "Placar da Guerra",  Consta a informação de que o veículo acredita que apresentar os números de forma impactante pode "ser o primeiro passo para a mudança". O Imprensa Viva acredita que a mudança na cultura da sociedade no trato com a questão da violência e da criminalidade também é um caminho para encurtar a distância que ainda separa o país do estágio civilizatório ideal. A mensagem é simples: Quem mata é covarde. Quem omite também não contribuiu nem para a sociedade nem para a recuperação do criminoso. O país precisa acreditar na Justiça e na capacidade de ressocialização do sistema penitenciário. A mudança na cultura oferece uma perspectiva mais perene que meras denúncias. De nada adianta cobrar soluções apenas do Estado. É preciso que a sociedade caminhe como um todo na direção da tolerância zero com o crime. Para o bem de todos, inclusive dos criminosos. 

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