linkaki

José Padilha dispensa oferta da Polícia Federal para produção da Série "O Mecanismo", da Netflix



O diretor José Padilha é o responsável por mais um projeto baseado na Operação Lava Jato. A série   "O Mecanismo", da Netflix, que estreia no próximo dia 23. A série foi produzida sem a interferência da Polícia Federal, como ocorreu no caso do Filma "Polícia Federal - a Lei É para Todos", produção nacional dirigida por  Marcelo Antunez, que teve um público de cerca 1,4 milhão de pessoas. Foi a maior bilheteria do país em 2017.

Mas ao contrário do diretor Marcelo Antunez, Padilha dispensou assinatura de qualquer termo com a Polícia Federal para a produção da Série "O Mecanismo".

"Na verdade, o então chefe da Polícia Federal em Brasília, Leandro Daiello, me ligou em Los Angeles, ainda quando estávamos redigindo a série. Ele me ofereceu locações, apoio logístico, acesso aos policiais, viaturas e até análise jurídica. Para isso, a PF precisava ter acesso aos roteiros", conta Padilha.

"Esse tipo de colaboração, em que uma entidade do Estado quer ler roteiros em troca de benesses para a produção não faz sentido para nós", prossegue.

"Afinal, por que só a Policia Federal? Será que só a Policia Federal quer preservar a sua imagem? E se o STF nos oferecesse apoio desse tipo? Ou o Senado? Ou a Presidência da República? Ou o TRF-4? Ou a Procuradoria Geral da República? No final do processo, teríamos uma série chapa branca. De modo que eles têm toda razão: não topamos assinar o termo de colaboração mesmo.", garantiu Padilha

Coerente Padilha escreveu um belíssimo artigo em sua coluna do jornal O GLOBO há algum tempo.  O cineasta questionava a honestidade intelectual dos simpatizantes da esquerda e da direita no país, abordando um tema que permanece atual.  "Tem muita gente na esquerda brasileira que preza a honestidade intelectual e que sabe que teve que abrir mão dela (a honestidade intelectual) para defender Lula, Dilma e o PT", observou Padilha em seu artigo.

Sob o ponto de vista ideológico, é possível afirmar que há também muitas pessoas da "direita" que violaram sua "honestidade intelectual" para defender coisas erradas praticadas por líderes políticos que defendem.

Em sua coluna, Padilha cita o trabalho de vários filósofos e de cientistas contemporâneos que abordam o tema, mas o fato é que a honestidade intelectual pressupõe a fé individual e a convicção de cada um quanto à verdade e não uma "adaptação" às circunstâncias. Honestidade intelectual é algo que requer zelo com a consciência. Não há como conciliar a consciência com conivência.

O termo verdade pode ser bastante duro para aqueles que costuma lidar com ela a partir de certas conveniências. Não há verdade individual. Não existe "a minha verdade". Fosse assim, o mundo acadêmico não poderia arbitrar a verdade a partir de dados concretos, de forma pragmática. A verdade é uma só e deve atender aos princípios universais da humanidade no espaço e no tempo.

Se um indivíduo colocar a mão no fogo vai se queimar. Seja no Tibet ou em Guaianases. No passado, no presente ou no futuro. Se alguém jogar uma pedra para o alto, ela também vai cair, em qualquer tempo e em qualquer lugar. Não há meio termo para a verdade. Assim como não há meio termo para a "honestidade intelectual" e a convicção. Os critérios para este tipo de disposição são estreitos.

Defender algo contraditório apenas com base no verniz ideológico não é honesto. Os representantes da esquerda brasileira bem sabem que a roubalheira promovida pelo PT, muito desumana por sinal, tinha como propósito bancar um plano de poder que agregasse a todos os simpatizantes de uma corrente ideológica. O problema é que setores da direita brasileira também  adotaram o critério nada ético no qual tentaram justificar que "os fins justificam os meios".

Tanto a direita quanto a esquerda acabaram metendo os pés pelas mãos, exageram na dose de seus discursos. E qual argumento que prevalece no debate político atual? Tentar fulanizar os defeitos uns dos outros. Não há absolutamente nenhuma honestidade intelectual neste tipo de critério. Isso é retórica de gente desonesta intelectualmente.

Em seu artigo publicado no O GLOBO, Padilha chama a atenção para  os "Debates acerca da honestidade e da desonestidade intelectual, e o que as caracteriza, são recorrentes na epistemologia e na filosofia da ciência. Estão presentes no trabalho de filósofos como Bertrand Russell, Imre Lakatos, Karl Popper e Paul Feyerabend, além de inúmeros filósofos e cientistas contemporâneos, como Daniel Dennett e David Deutsch. E, no entanto, até mesmo pessoas que conhecem esses autores ficaram chateadas comigo, como se tivessem lido essas duas palavras juntas pela primeira vez na vida. Por que será que o uso do termo “intelectualmente desonesto” ofende tanta gente na esquerda brasileira?

Entendo, portanto, que essas pessoas tenham ficado chateadas comigo quando abordei seu dilema de forma explícita. O que não entendo, todavia, é como não percebem o tamanho do erro que estão cometendo. Como disse Imre Lakatos em uma aula que proferiu na London School of Economics, o problema da honestidade intelectual não é uma questão abstrata de filosofia, é uma questão de vida ou morte.

Os debates acerca da honestidade intelectual se centram em duas questões: a primeira diz respeito ao que caracteriza a honestidade intelectual, e a segunda diz respeito a sua função social e evolutiva. Essas duas questões são complexas, de forma que serei superficial e sucinto.

No que tange à primeira questão: quase todas as caracterizações de honestidade intelectual em filosofia analítica afirmam, de uma forma ou de outra, que uma pessoa é intelectualmente honesta quando ela está disposta a abandonar as suas ideias caso fique demonstrado que:

1) Elas são internamente inconsistentes (logicamente contraditórias).

2) Elas são incompatíveis com enunciados que reportam fatos (estão em contradição lógica com os enunciados de base).

Um rápido exame desse critério revela que se trata de um critério negativo. Segundo ele, a honestidade intelectual não requer que alguém adote ideias, requer apenas que alguém esteja disposto a abandonar as suas ideias em certas circunstâncias.

E por que a adoção de um critério desse tipo é uma questão de vida e morte?

Em primeiro lugar, evidentemente, porque contrariar fatos pode ser fatal. Pense em todas as pessoas que morreram de câncer no pulmão porque se recusaram a abandonar a crença, propagada pela indústria do tabaco, de que cigarro não faz mal à saúde. Mas há um outro motivo, igualmente sério: quando pessoas que defendem ideias incompatíveis não dispõem de algum critério lógico que lhes permita decidir quem tem razão, e nenhuma delas está disposta a dar o braço a torcer, as disputas entre elas podem se tornar violentas. Por isso, uma sociedade habitada por pessoas intelectualmente desonestas tende a ser uma sociedade cheia de conflitos.

O respeito à racionalidade e à honestidade intelectual é valor muito mais importante e fundamental para uma sociedade do que qualquer ideologia. O erro fundamental de parte da esquerda brasileira, um erro que talvez fira de morte as ideias socialistas no país, é não entender isso. E a direita, diga-se de passagem, está indo pelo mesmo caminho", apontou Padilha.

Honestidade intelectual é algo fundamental. Sobretudo em ano eleitoral. Isto vale tanto para os candidatos quanto para os eleitores. 

Informe seu Email para receber notícias :