linkaki

Bolsonaro recua após ser castigado nas redes sociais e vota a favor da intervenção no Rio



Após ter sido duramente castigado nas Redes Sociais por ter se manifestado prematuramente contra a intervenção federal decretada pelo presidente Michel Temer no Rio de Janeiro, o deputado Jair Bolsonaro acabou recuando e votando favoravelmente ao decreto na Câmara dos Deputados na noite desta terça-feira. O receio de ser vaiado nas ruas do Rio e do Brasil falou mais alto.

A Câmara aprovou na madrugada desta terça-feira (20) o decreto de intervenção federal de Temer após mais de sete horas de sessão, por 340 votos a 72 e apenas uma abstenção). Bolsonaro acompanhou apreensivo o placar de votação e logo se certificou de que a maioria esmagadora dos parlamentares eram favoráveis a autorizar a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. Não havia como ser do contra desta vez.

Agora é tarde. Este foi mais um erro de avaliação do parlamentar, que ao lado de gente como os membros do PSOL, PT, PCC e Comando Vermelho, apostou no fracasso da iniciativa com críticas de cunho político e ponderações cansativamente óbvias.

O fato de ter se manifestado contra a intervenção e por ter insistido que o decreto teria que ter sido feito de "seu jeito", ignorando entraves burocráticos, legais e constitucionais, abalou profundamente a pouca credibilidade do parlamentar aos olhos de seus críticos. As retóricas infantis típicas de quem quer se apropriar de uma iniciativa que nunca teve, as tentativas de vincular a iniciativa a uma jogada eleitoreira e os ataques ferozes contra o governo colocam Bolsonaro definitivamente ao lado de políticos como o ex-presidente Lula, que sempre fez oposição sistemática ao atual governo, ignorando o bem estar e os interesses da população.

Apesar de sua diminuta estatura política, Bolsonaro se notabilizou nacionalmente por ter dito que não estupraria a deputada Maria do Rosário e por ter levado uma cusparada do deputado Jean Wyllys. Embora estes tenham sido seus maiores feitos, o parlamentar vem há tempos tentando pegar carona na onda de insatisfação popular contra a esquerda e tentando se vender como um candidato de direita com relativo sucesso junto ao eleitorado menos esclarecido.

Em 26 anos de Congresso, o deputado aprovou apenas um projeto de sua autoria e a extensão de projetos de lei de autoria de outro parlamentar, mas apresentou 53 em benefício de militares. Não é por acaso que ficou conhecido como o candidato dos PM's. Bolsonaro costuma se gabar e diz "Sou um intruso no poder". De fato, um intruso que recebe benefícios sem declarar o que faz com o dinheiro e que nunca aprovou nada relevante, mas faz parte do poder ha décadas.

Ocorre que algumas ideias e posturas do parlamentar são incompatíveis com aquilo que diz ser. Bolsonaro votou como Maria do Rosário, Jean Wyllys e o PT em várias circunstâncias. Votou contra a cobrança de de mensalidade de ricos em universidades públicas, a favor da denúncia que Janot forjou com os criminosos da JBS conta o presidente, militou contra a reforma da Previdência. Bolsonaro se declara contra a independência do Banco Central e já admitiu publicamente a possibilidade de rever a PEC do teto dos gastos, caso seja eleito.

No passado, Bolsonaro também votou com o PT e PCdoB contra o Plano Real, contra a quebra dos monopólios do petróleo, contra a reformas administrativa, conta a reforma da Previdência, contra o fim do monopólios das telecomunicações.  Em 1995, ele se levantou contra a proposta de emenda constitucional (PEC) que acabou com o monopólio estatal do petróleo e, no ano seguinte, contra a PEC que acabava com o monopólio da União na prestação dos serviços de telecomunicações. Foram as duas propostas que permitiram a entrada de outras empresas brasileiras e estrangeiras em ambos os setores. A telefonia se modernizou no país e a produção de petróleo quase duplicou em cinco anos.

O parlamentar não gosta de ser comparado ao ex-presidente Lula, mas foi desligado do Exército justamente por sua conduta de sindicalista radical em favor de aumentos salariais para a categoria. Assim como Lula, Bolsonaro também costuma recorrer ao velho discurso de vítima de bullying de inimigos poderosos que tentam destruí-lo a qualquer custo. A conduta corporativista de Bolsonaro invadiu sua vida parlamentar, praticamente toda dedicada a assegurar aumentos salariais e privilégios para servidores federais, militares e forças policiais. Em 1999, Bolsonaro militou ao lado do PT contra proposta que instituía a cobrança previdenciária de servidores públicos inativos e aumentava a contribuição dos servidores em atividade. A medida fazia parte de um pacote de ajuste fiscal do governo para equilibrar as contas públicas, algo que nunca representou motivo de preocupação para o parlamentar, que entende que o dinheiro do contribuinte serve apenas para assegurar os interesses de castas de servidores privilegiados, que além da estabilidade no emprego, recebem até dez vezes mais que um trabalhador da iniciativa privada.

Em 1996, a preocupação do deputado foi com sua própria aposentadoria. No início daquele ano, o então presidente da Câmara, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), decidiu extinguir o Instituto de Previdência dos Congressistas (IPC). Tratava-se de um órgão que concedia aposentadorias especiais para os deputados e senadores, e ainda permitia que eles pegassem empréstimos e financiamentos de automóveis em condições muito melhores que as do restante da população. Bolsonaro vociferou contra a ideia e a classificou de “eleitoreira”, assim como tentou taxar a intervenção federal decretada por Temer no Rio de Janeiro.

O deputado, a exemplo dos ativistas políticos do Judiciário e do MPF, aposta na campanha de destruição da classe política, apesar de fazer parte dela há mais de 30 anos e dela se beneficiar. O patrimônio de Jair Bolsonaro saltou de pouco mais de R$ 50 mil para mais de R$ 8 milhões, desde que ingressou na política. O parlamentar e seus filhos empregaram, nos últimos 20 anos, uma ex-mulher e dois parentes dela em cargos públicos em seus gabinetes.

Ocorre que em meio à classe política que Bolsonaro tenta desmerecer, apenas 20% está envolvida em denúncias de corrupção. Entre os 513 deputados federais, apenas 11 recebem auxílio-moradia, sendo que apenas seis possuem imóvel em Brasília, e Bolsonaro é um deles.

Foi esta classe política que, ao longo das últimas décadas aprovou praticamente todos os avanços e conquistas da sociedade, como o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Lei da Ficha Limpa, a Lei de Delação Premiada, o limite do teto dos gastos públicos e outras tantas. Demonizar a classe política é antes de tudo um gesto de irresponsabilidade. Entre os deputados federais e senadores, há políticos que estão há mais de 20 anos em atividade sem nenhuma denúncia ou suspeição. Gente que passa dias em comissões, ouvindo especialistas e se familiarizando com problemas que a maioria dos brasileiros desconhece. Basta visitar o site Políticos.org para verificar a conduta e o desempenho de cada parlamentar. Abrir mão da políticos qualificados e testados que se dedicam há décadas a discutir e melhorar o país em troca de aventureiros oportunistas pode ser um retrocesso. Nenhum ser humano é perfeito, mas alguns são mais confiáveis e recomendáveis que os outros justamente por sua postura pregressa, por sua vida pública e dedicação.

Presidentes sem articulação no Congresso foram extremamente danosos para o país. Desde José Sarney, passando por Fernado Collor, FHC, Lula e Dilma, todos enfrentaram dificuldades em lidar com o parlamento e não conseguiram aprovar medidas importantes, como a reforma trabalhista, a reforma do ensino e a o limite do teto dos gastos públicos. O Brasil corre o risco de viver um enorme retrocesso apostando na figura de um salvador da pátria qualquer, sem retrospecto de conquistas políticas, sem articulação no Congresso e sem experiência administrativa, a exemplo da tragédia que ocorreu com Lula e Dilma.

Bolsonaro pode ser um homem honesto, pode ter se apropriado de pautas defendidas por boa parte da população, como a derrubada do estatuto do desarmamento, mas não é o único que defende projetos de interesse popular. Pelo contrário. Pode ter mais dificuldade que qualquer outro político, dada a sua falta de habilidade e de sensibilidade no trato com questões políticas. Quando um indivíduo se diz dono de algo ou tenta se apropriar de anseios comuns, dificilmente será capaz de angariar o apoio dos demais. Assim como Lula, Bolsonaro é um sujeito é incapaz de reconhecer os méritos de seus adversários políticos e ainda tenta se promover criticando aqueles que estão fazendo alguma coisa pelo país. É muito oba oba para quem fez tão pouco ao longo de 30 anos de vida pública. O Rio de Janeiro que o diga. 

Informe seu Email para receber notícias :