linkaki

A fantástica teoria da conspiração do ancião sobre o sociólogo, o sindicalista e a terrorista



Por mais que as teorias da conspiração possam parecer extravagantes e despropositais, a maioria delas possui um poder extraordinário de mexer com o imaginário popular. Dependendo da narrativa, até mesmo os mais céticos podem se permitir seduzir por estas histórias que vira e mexe, emergem do anonimato, sugerindo realidades bem diferentes das convencionais.

A Wikipedia descreve a teoria da conspiração (também chamada de teoria conspiratória ou conspiracionismo) como uma hipótese explicativa ou especulativa que sugere que duas ou mais pessoas ou organizações tenham tramado estratégias  mirabolantes para causar ou acobertar, por meio de planejamento secreto e de ação deliberada, uma situação ou evento tipicamente considerado ilegal ou prejudicial. Ou não.

De qualquer forma, uma boa teoria da conspiração é sempre interessante quando possui os ingredientes certos. Ainda mais quando envolve um ancião em seu leito de morte. Neste cenário, qualquer narrativa pode ser capaz de capturar o imaginário de um jovem sonhador. Anda mais se este jovem for o neto de um dos nomes que consta no Decreto No 70.274,  9 de março de 1972 assinado pelo então presidente da República Emílio Garrastazu Médice.

O referido documento é o Cerimonial da Presidência da República, uma espécie de cartilha de liturgias sobre onde, quando e como devem se portar chefes de Estado e outras autoridades em cerimônias oficiais.

Embora não seja possível precisar se o ancião moribundo era um ex-membro do Gabinete Militar ou Civil, o fato é que seu relato deixou seu interlocutor consanguíneo bastante impressionado. Tanto que dois anos mais tarde, mais precisamente numa sexta-feira, 23 de dezembro de 2011, o neto do homem que possuía alguma relação com os militares e o cerimonial da Presidência, resolveu dar com a língua nos dentes para um estranho.

A história começou a ganhar contornos de uma conspiração fantástica em um banco do saguão de espera do Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo. De forma imprecisa, o jovem contou uma breve história envolvendo um sociólogo, um ex-dirigente sindical e uma terrorista. A sucessão de eventos é descrita com certa precisão cronológica envolvendo personagens do mundo real, de modo que se torna quase impossível não ver sentido na narrativa.

Segundo o jovem com aspecto de andarilho, o sociólogo havia passado anos a fio tentando convencer os militares, empresários e outros integrantes da República que a consolidação da Democracia só se daria a partir do momento em que houvesse uma verdadeira alternância de poder no país. Contou ao jovem o ancião que foram várias reuniões, várias idas e vindas e várias 'introduções' de uns sujeitos desconfiados em ambientes acima de qualquer suspeita na capital federal.

Com muito sacrifício, o sociólogo acabou convencendo os interessados que o ex-sindicalista não era esse  bicho papão que todos imaginavam. Logo as coisas começaram a se encaminhar para a tal alternância democrática de poder, que acabou se consolidando alguns anos depois.

Até aqui, nada demais. De fato, tirando seus companheiros esquisitos, o tal sindicalista era até mesmo meio bonachão. O problema central da teoria da conspiração narrada a toque de caixa na Rodoviária de São Paulo ficou claro quando surgiu a figura da terrorista.

O sindicalista queria colocar uma ex-terrorista em seu lugar, embora insistisse no argumento de que ela não teria a menor chance e que tudo fazia parte de um jogo político de cartas marcadas. Outros anciões viram tudo aquilo com muita desconfiança. O consenso entre eles era o de que a coisa não estava cheirando bem e eles nem quiseram consultar o sociólogo novamente. A coisa seria resolvida entre eles mesmos. Após muitas reuniões, muitas idas e vindas e muitas negociações envolvendo gente influente das Forças Armadas, homens da República e até banqueiros, os homens soturnos que pareciam mandar em tudo acabaram concordando com o sindicalista. Mas impuseram uma condição: ele teria que colocar um constitucionalista na retaguarda da terrorista. O sindicalista brigou, falou que não precisava daquilo, que a situação jamais chegaria às vias de fato, mas não teve conversa. Sem o constitucionalista de confiança na retaguarda, nada feito. Vai que alguma coisa dá errado?

Até hoje não se sabe se aqueles homens desconfiados que jamais sorriam eram militares, civis ou criaturas que emergiam no meio da noite dos subterrâneos do Palácio do Planalto. Por mais que a teoria da conspiração pareça fantasiosa, parece razoável que eles tenham acertado em colocar um homem de sua confiança no meio de toda aquela trama.

Em dado momento, o jovem que narrou a história se deu conta de que estava atrasado e saiu sem se despedir. Suas palavras geraram tantas reflexões, que sequer deu para guardar suas feições direito. Não se sabe se ele foi para Araraquara ou Araguaína. Mas a impressão que ficou foi a de que aquelas coisas esquisitas que contou pareciam fazer sentido naquela cabeça meio confusa. Mas é claro que tudo não passa de uma teoria da conspiração, não é mesmo?

Informe seu Email para receber notícias :