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General Mourão escorrega no discurso e se refere aos Brasileiros como 'povinho'



Os tempos conturbados da política nacional dos últimos anos serviram para comprovar que ninguém está imune a falhas e equívocos em suas interpretações sobre os desafios do país. O general do Exército Antonio Hamilton Mourão cometeu em deslize durante seu discurso no Clube do Exército, em Brasília, nesta quinta-feira (7).

Ao explanar sua visão sobre os problemas e desafios que o Brasil tem pela frente, Mourão fez menção à uma velha piada que descreve o povo brasileiro de forma pejorativa.

A tal piada  reproduz uma conversa imaginária entre um cidadão estrangeiro e Deus, na qual o interlocutor questiona a distribuição de problemas ao redor do mundo:

– O Senhor criou o mundo e os países e nestes colocou terremotos, tempestades, furacões e até desertos. Já no Brasil, o senhor colocou matas verdejantes, mar maravilhoso com brisa fresca e rios de águas límpidas. Lá a natureza é bela e tranquila. Isso não lhe parece injusto com o resto do mundo?

Ao que Deus responde: "Calma meu filho, ainda não acabei a obra, você vai ver o povinho que vou colocar lá!"

Em sua fala no Clube de oficiais, Mourão fez uma referência à piada e afirmou que as catástrofes ambientais e climáticas "passaram a nos assolar também". "Aqui havia aquele velho ditado: não teríamos enchentes nem furacões. Teríamos apenas um povinho meio complicado. Agora temos enchentes, furacões, e o povinho continua aí."

Após se referir ao povo, Mourão se dedicou a descrever as mazelas da classe política e observou que a esquerda e a direita brasileira se confundem num ciclo vicioso de corrupção e poder. Assista AQUI o vídeo na íntegra.

O militar acenou ainda sobre a possibilidade de ingressar na vida política. Ao ser indagado sobre a uma possível candidatura, Mourão foi lacônico: "Eu apenas digo uma coisa: não há portas fechadas na minha vida". O militar disse que seu domicílio eleitoral é em Brasília e que passará para a reserva em 31 de março do ano que vem. Depois disso, deverá morar no Rio de Janeiro".

Esta não é a primeira vez que líderes brasileiros culpam o povo sofrido e negligenciado pelo Estado pelas mazelas do país. A dificuldade em reconhecer que o Brasil está no meio de sua trajetória como civilização e que terá que percorrer um longo caminho até alcançar o nível de desenvolvimento de outros país em áreas como educação faz com que muitos cometam o mesmo equívoco. Enquanto mais de 70% da população adulta de países como Alemanha possuem nível superior, no Brasil possui apenas 7,9%. As desigualdades socioeconômicas históricas no país dificilmente serão superadas em poucas décadas, por mais que se ampliem os investimento na educação básica e pública.

O Brasil possui cinco níveis de alfabetismo funcional, segundo o relatório "Alfabetismo e o Mundo do Trabalho": analfabeto (4%), rudimentar (23%), elementar (42%), intermediário (23%) e proficiente (8%). O grupo de analfabeto mais o de rudimentar são considerados analfabetos funcionais e a escala de capacidade de entendimento das coisas vai até o nível dos alfabetizados proficientes. Isto significa que apenas 8% das pessoas em idade de trabalhar são consideradas plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. Ou seja, oito a cada grupo de cem indivíduos da população. Eles estão no nível "proficiente", de acordo com o índice conhecido como Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional).

As informações constam do estudo realizado pelo IPM (Instituto Paulo Montenegro) e pela ONG Ação Educativa. No conjunto, foram entrevistadas 2002 pessoas entre 15 e 64 anos de idade, residentes em zonas urbanas e rurais de todas as regiões do país.

Esta é a cara de mais de 70% dos brasileiros. Nem
todos vivem em ilhas de prosperidade, mas pagam
os mesmos impostos no leite, no arroz, na gasolina, etc.
Os problemas enfrentados pelo Brasil não são de responsabilidade do povo, mas sim das autoridades, dos empresários, das elites que corrompem os agentes públicos em troca de vantagens financeiras. São os meios de comunicação, que negligenciam informações fidedignas, que manipulam a população com pautas ideológicas para favorecer grupos políticos. São os professores desqualificados e incapazes de instruir e educar de forma adequada os alunos desde o ensino fundamental até a a formação superior. As elites que se erguem hoje chamando a atenção para os problemas do país estavam em silêncio ao longo da última década e meia, enquanto a corrupção se agigantava e fortalecia grupos econômicos que participaram do mais ambicioso projeto de poder da história da República.

Assim como outros insatisfeitos com a atual situação do país, o general Mourão também é um homem bem intencionado. E assim como os demais que agora se propõem a tirar o Brasil da grave crise política, econômica e social, o militar também deve fazer uma reflexão mais profunda sobre a origem de todos estes problemas e se lembrar que o povo é a maior vítima de tudo isso. O povo não é culpado pelas elites que têm.

Os donos das grandes fortunas, os bancos,  os especuladores do mercado financeiro e os empresários gananciosos não vão vendar os olhos para deixar de ver os bilhões do dinheiro do contribuinte nos cofres públicos, não vão deixar de afagar e financiar os políticos que possuem as chaves dos cofres. Não vão. Neste exato momento, famílias ricas, meios de comunicação e empresários corruptos estão se movimentando num ritmo frenético nos bastidores da política para identificar quais candidatos possuem maiores chances de se elegerem deputados federais, senadores, governadores e o futuro presidente da República. Os conchavos envolvendo futuros esquemas de corrupção estão sendo alinhavados a todo vapor por dirigentes de partidos que dependem de grupos econômicos e meios de comunicação para propagar suas mentiras durante a campanha eleitoral ao maior número possível de iludidos, aflitos com a situação do país e ávidos por promessas mirabolantes. Estão todos mobilizados para elaborar fórmulas de iludir e ludibriar o maior número possível de eleitores que vão lhes garantir seus mandatos.

Apesar do quadro desolador, esta é a Democracia. Em todo o país, candidatos não tão bem intencionados, mortos de fome e loucos para usufruir dos bens materiais que o dinheiro pode comprar, coitados, se tornam presas fáceis para empresários inescrupulosos. Não há como supor que os eleitores de uma comunidade carente ou de uma região desprovida de tudo vão votar em um sujeito cheiroso, de gravatinha e que que fala difícil. Vão votar no Zé das couve, no Tonho do mototáxi e no Tião do mercado, financiados pelo fornecedor de serviços para os governos locais, pelos donos de grandes propriedades, etc. A eleição do palhaço Tiririca, eleito em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, é um bom exemplo disso.

Entretanto, para evitar o baixo astral, vale lembrar que mesmo que não houvesse a corrupção, a arrecadação da União não seria suficiente para equacionar nem um décimo dos problemas do país em quatro anos. Mesmo se não roubassem, os políticos continuariam mentindo e iludindo o povo com suas promessas mirabolantes e impossíveis de serem cumpridas em décadas. O Brasil é um país pobre, com a maioria da mão de obra sem qualificação, não exporta bens de consumo de alto valor agregado, não possui patentes valiosas que rendam royalties como os países desenvolvidos, não possui base tecnológica capaz de produzir inovações para o mundo em larga escala, não possui base científica e tudo que consome em termos de tecnologia, metodologias e matérias primas de ponta vêm do exterior. A maior parte da arrecadação do país tem origem na parcela da sociedade, que têm renda inferior à R$ 3 mil. Na prática, o país vende o almoço para comprar a janta. Não há recursos suficientes para revolucionar a educação ou mesmo a saúde, pois o Brasil não tem nem médicos nem professores em número suficiente.

Nada disso é culpa do povo.




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