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William Waack não foi vítima da imprudência. Escorregou na própria arrogância. Comentário infeliz para uma pessoa esclarecida



Não há nada de errado com o corporativismo, quando um grupo organizado reúne forças para defender de seus interesses. O problema é quando um grupo de pessoas prioriza a categoria profissional em detrimento da sociedade. O episódio envolvendo o jornalista William Waack esta semana serve para ilustrar bem o quanto o corporativismo por vezes extrapola as raias do bom senso. Vários jornalistas saíram em defesa do profissional que escorregou na própria arrogância ao reclamar do som de buzinas na rua.

Ninguém colocou a frase “É coisa de preto” na boca de William Waack, que tinha até então milhões de admiradores negros. O fato de ser uma pessoa esclarecida, exaltado por seus colegas de profissão como um dos melhores jornalistas do Brasil é apenas mais um motivo para esperar que uma pessoa com suas qualificações seja capaz de discernir o certo do errado.

O jornalista não teve sequer o zelo em manter seus preconceitos aprisionados em um canto obscuro de sua personalidade, como muitas pessoas fazem. Neste sentido, não se trata de hipocrisia. A herança cultural de décadas passadas ainda está presente na consciência da maioria das pessoas.

Há cerca de cinco, quatro três, duas décadas, muitas coisas eram vistas com naturalidade na sociedade. Era comum pessoas da classe média abrigaram meninas "do interior" em suas casas em troca de serviços domésticos. Em muitos casos, havia até mesmo abusos sexuais por parte dos patrões ou filhos dos patrões. É claro que este tipo de tragédia humana ainda ocorre nos dias de hoje, mas em menor número. É claro que há famílias que acreditam piamente que estão fazendo o bem para uma criança que resolvem 'generosamente' abrigar em suas casa em troca de pequenos serviços domésticos. É claro que estas famílias ignoram o conceito da adoção fraternal, onde poderiam perfeitamente abrigar uma criança em condições de vulnerabilidade e tratá-la como filho, fornecendo educação, alimentação, lazer e outras necessidades básicas sem exigir contrapartidas.

Em outros tempo, era quase uma obrigação de certos 'patrões' cantar a secretária ou a empregada e sair contando vantagens nos corredores da empresa ou nas mesas de bar. Em outros tempos, qualquer pessoa cortava uma árvore sem dar satisfação a ninguém. Em outros tempos, a maioria das atrizes faziam o famoso 'teste do sofá' para conseguir um papel de destaque. Em outros tempos, até na TV, era comum falar que isso ou aquilo “É coisa de preto”. 

Mas os tempos mudaram e a sociedade evoluiu, ou tenta evoluir, como era de se esperar. As pessoas sensatas se concordaram e corroboram para estas mudanças. Através do amplo debate em torno das condições dos direitos humanos, muitas coisas que eram consensuais foram revistas, num acordo social para corrigir erros do passado.

Embora boa parte desta cultura ainda permeie pensamentos de pessoas de várias gerações, a maioria delas reconhece os equívocos cometidos no passado e procura trancafiar estes ranços culturais em algum lugar de suas consciências. Para muitos, o zelo nestes casos não é nem para evitar ofender o semelhante, mas para evitar situações embaraçosas como protagonizada por William Waack diante das câmeras. A pessoa que vazou o vídeo não colocou aquelas palavras em sua boca. Ela simplesmente o usou como exemplo de algo que não deve se repetir. Quem se colocou na condição de exemplo a não ser seguido foi o próprio Waack, imprudente e vítima da própria arrogância.

Como foi visto anteriormente, a cabeça das pessoas ainda está repleta de ranços de um passado recente da sociedade. Muitos ainda não aprenderam a domar seus impulsos e manter aprisionados certas heranças culturais malditas. São coisas ruins que devem morrer junto com as pessoas que contemporâneas de coisas que consensualmente a sociedade tenta banir. Que as novas gerações não sejam contaminadas pelo preconceito ressuscitado ver por outra por uma pessoa pública.

De todo modo, errar é humano. Neste sentido, não cabe a nenhum jornalista, admirador ou interlocutor exercer o papel de advogado de William Waack. Cabe a ele vir a público se desculpar com os negros e com a sociedade por seus erros, dar seu testemunho de que aprendeu algo, dizer se cresceu ou não com a lição. Embora tenha que aprender a conviver com esta ferida, dificilmente perderá seu talento como jornalista que agrada determinado público.
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