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Globo humilha atrizes expondo nudez gratuita e desnecessária, diz ator Pedro Cardoso. Isso não é arte, é pornografia



O ator Pedro Cardoso é o autor de um duro manifesto contra a pornografia na TV, no cinema e nas artes de modo geral. Embora suas críticas sobre a exploração e humilhação de atrizes forçadas a expor seus corpos de forma gratuita e pornográfica tenham sido feitas há alguns anos, a partir de seu manifesto é possível depreender temas bastante atuais, porém relacionados a formas mais torpes de nudez e pornografia gratuita: a exposição de crianças a este tipo de obscenidades.

"Aqueles que creem estar inocentemente reproduzindo o real em suas cenas de intimidade, estão, na verdade, disfarçando a pornografia de realismo. A ambição do homem em reproduzir o real, e a arrogância de que ele um dia o poderá conseguir, facilitaram o caminho para instalação da pornografia disfarçada entre nós".

O VALOR ECONÔMICO DA PORNOGRAFIA DISFRAÇADA


A pornografia declarada, por razões que eu nunca me propus a discutir aqui, tem uma enorme demanda e é, portanto, um grande negócio. Pois bem, a pornografia disfarçada também o é. É preciso falar sobre a sedução que o poder econômico da pornografia disfarçada exerce sobre a classe artística.

Paga-se mais, contrata-se mais, convida-se mais aqueles que fazem cenas ditas sensuais, no jargão da hipocrisia pornográfica, do que aqueles que não as fazem. No mercado americano, as atrizes negociam ponto a ponto de seu corpo o valor do cachê. A nudez têm preço e é muito bem paga. E num mundo cuja organização econômica produz tanta pobreza, quem pode se dar ao luxo de não querer ser rico?

Quando a pornografia era declarada, não havia como convidar os atores de carreira para nela trabalhar. Isto os ofenderia e macularia as suas biografias. A medida em que a indústria da comunicação em massa foi pervertendo a liberdade de costumes do anos 60, e disfarçando a pornografia de entretenimento ou arte, passou a ser possível convidar atores de carreira para realizá-la. Uma cena, em tudo igual a de um filme ponográfico brando - apenas eventualmente melhor produzida - podia agora de ser representada por atores de carreira porque ela pertencia a uma obra de arte ou a um entretenimento inocente. Os atores de carreira passaram a realizar o trabalho que antes estava legado aos atores pornô. (Sinceramente, eu vejo muito pouca diferença entre as cenas da pornografia declarada e da disfarçada. Dizer que há é uma mentira que foi urdida para permitir aos atores de carreira fazer as cenas pornográficas com patética dignidade. Quem duvidar de mim, peço que assista com atenção aos filmes de pornografia declarada e veja se as situações que encontramos nas novelas de TV e nos filmes - nacionais ou internacionais - não são assustadoramente semelhantes. Tanto em uma como em outra, os conflitos são forjados de modo a, invariavelmente, levar um casal para cama.) Antes, quando a pornografia era declarada, era preciso contratar atores expecializados em pornografia, muitos deles oriundos da prostituição; hoje, com o disfarce de normalidade que a pornografia assumiu, pode-se chamar atores de carreira, e assim oferecer cenas pornográficas para toda família. A pornografia usou os atores de carreira para legitimar-se perante o público. Claro que isto só foi possível porque ela antes se disfarçou de entretenimento ou arte.

Uma vez que os atores de carreira passaram a colaborar com a indústria que explora a pornografia disfarçada (sabendo o que estavam fazendo ou não) eles passaram também a usufruir da riqueza que ela produz. Antes do cinema e da televisão, representar não fazia a fortuna de ninguém. É o advento da indústria da comunicação em massa, e o seu enorme faturamento, que possibilita aos atores obterem ganhos acima da média das outras profissões.

Este dinheiro poderia ser muito bem vindo, não houvesse ele cobrado aos atores, em muitas situações, que abdicassem de sua autoria. Este grande dinheiro não é pago para que o ator faça o que quer, mas sim para que ele faça o que é pedido à ele; e uma exigência sempre presente é participar de cenas, hipocritamente, ditas sensuais. Uma colega que estudou no EU foi convidada por um agente americano especializado em jovens atrizes para uma entrevista. Na conversa o homem disse, sem meias palavras, que ela era muito talentosa e que poderia ter uma carreira de sucesso, mas que para isso ela teria que fazer cenas sensuais porque elas são parte do negócio. Isto foi dito sem nenhum constrangimento. Claro, o ambiente cultural oferece a esse homem - e também a atriz que vai ouvi-lo - todos os argumentos necessários para que ele chame a isso arte ou entretenimento, e não pornografia. E pagar-se-á muito bem a quem aceite corroborar com o disfarce dela.

A indústria da comunicação em massa fez chegar a classe artística uma quantidade de dinheiro que ela nunca havia visto antes, mas cobrou o preço caríssimo da conivência dela com a pornografia disfarçada e outras anulações de sua autoridade criativa. E ainda fez a mediocridade valer mais do que a excelência. Fez surgir os falsos artistas e toda sorte de aventureiros que da arte se aproximam apenas para habilitarem-se a uma carreira, em cinema ou TV, onde o dinheiro é abundante. Não há médicos nem engenheiros sem vocação tentando a carreira, mas há multidões de não artistas tentando ser atores, diretores ou roteristas. É o dinheiro que os atrai, não o interesse sincero no fazer da arte.

         A promessa de uma vida de fartura econômica (além da terrível ameaça de desemprego) exerce grande pressão sobre uma atriz no momento em que ela se submete a uma cena pornográfica. E ela tem a lhe nublar o julgamento, o disfarce de entretenimento ou arte que a pornografia assumiu para redimir a todos nós.

Eu nada mais tenho a dizer, no momento, a respeito do fato de a pornografia ter se disfarçado de entretenimento inocente para poder assim ser vendida a um público maior. O que penso, acredito que o disse de modo claro. Mas cabe ainda fazer um acréssimo relevante.

O meu próprio entendimento do assunto foi se aperfeiçoando a medida que eu escrevia. De todos os aprimoramento e ajustes que fiz, acho importante lembrar aquele que me parece ser o ponto mais sensível de toda esta discusão. Eu mesmo, nos primeiros textos, fazia um distincão entre pornografia e arte. Depois, percebi que esta oposição é falsa. Não é o atingir uma expressão digna de ser chamada de artística que desfaz o pornográfico na pornografia. Ela continuará sendo pornografia, ainda que seja também arte. E o efeito dela sobre nós será o mesmo: uma distração da história que se está contando. Ainda que modificada pela excelência da arte, ela provocará em nós a mesma excitação do desejo sexual que a outra, a pornografia evidente, produz.

Assim, mesmo em situações que vieram a produzir obras de arte, poderemos encontrar atores oprimidos pela pornografia que a eles foi imposta. Hoje, já há no mercado de trabalho toda uma geração de atores que nasceu num mundo onde a pornografia já estava disfarçada. É muito difícil para eles perceber o desmando ao qual estão sujeitos. Eles não conhecem outro modo de exercer a profissão. Não sabem que houve um tempo em que não havia esse excesso de comunicação de massa, em que essa indústria ainda não estava tão estabelecida, em que não havia ainda tanto dinheiro na profissão, tantos eventos paralelos a ela (como a publicidade, presença em inaugurações, bailes de debutantes etc. Não que o fato de haver agora seja um mal em si. Apenas, não havia.) Não sabem que já houve um tempo em que havia apenas uma ou duas revistas que cobriam a atividade artística; e não vinte, como hoje. Para eles é muito difícil perceber a armadilha que a profissão se tornou. Eu pertenço à geração que viveu a transformação da liberdade de costumes conquistada nos anos 60 (eu nasci em 61) na pornografia disfarçada dos anos 90. Quem nasceu nos anos 80, e hoje tem vinte e tantos anos, não conhece outro mundo. Eles pensam que a profissão tem que ser assim! Mas é preciso compreender a profissão na sua perspectiva histórica. Tendemos a pensar que as coisas sempre foram como são no nosso tempo, mas não é assim.

Hoje um ator chega ao set para fazer algo que lhe foi oferecido como obra de arte ou entretenimento inocente, mas alguma coisa lhe diz que não é nem arte nem entretenimento o que lhe está sendo proposto. Mas ele não se permite pensar que não o seja. Ele não tem informação que lhe permita compreender o que está se passando. Esse é o mundo que ele conhece, que lhe foi apresentado como sendo o único possível; esse mundo onde, como disse um grande artista nosso, “o artista é mais importante que a sua arte”. A profusão de cenas de nudez, semi-nudez, atos sexual simulado, diálogos maliciosos, comportamento promíscuo sem reflexão sobre ele etc.; a confusão entre a intimidade do artista e a intimidade dos personagens; toda essa indústria de celebridades, enfim, todo esse mundo parece, ao jovem ator, natural e espontâneo. Mas não é. É preciso dizer que não é. Caso houvesse tantos artistas verdadeiros debruçados sobre assuntos estritamente ligados à sexualidade, o Brasil e o mundo estariam fervilhando numa explosão de arte sobre a vida íntima. Sinceramente, não acho que o público tenha essa opinião. Uma cena em que a nudez seja uma expressão artística é rara porque a arte é rara. E a nudez, sendo um momento crítico para a narrativa, porque torna a presença da pessoa do ator evidente demais para que ele, sobre ela, produza a ilusão do personagem, é, por essa razão, mais rara ainda. É rara, mas existe! O que devemos é separar uma coisa da outra, para que cada coisa seja o que é, e os atores e o público possam, livremente, escolher.

Quem percebe em mim tanta revolta e indignação, é porque eu estou mesmo revoltado e indignado. Eu sou ator! É a mim que acenam com a ameaça de cenas pornográficas. Repito indefinidamente: não são os roteiristas, nem os diretores, nem os fotógrafos, nem os diretores de arte, nem os figurinistas, nem muito menos os investidores, nem os jornalistas, nem os intelectuais que terão os seus corpos e suas sensibilidades expostas, e a vida de seus filhos confrontadas com isso. Fiquem eles nus; façam eles cenas ridículas com cara de desejo, tendo que gemer e revirar os olhos de prazer numa ridícula cópia da intimidade! Não o farão. Não têm coragem. Nenhum desses jornalistas, críticos, cineastas, roteiristas, investidores, nenhum deles terá coragem de fazer as cenas que defendem. Os convido a posarem nus para um calendário dos que defendem a nudez! Não o farão. (Caso algum vocês o queira fazer, escreva-me um e-mail, mande a foto, e eu a publicarei.)

E àqueles que venham a dizer que esta é uma tarefa que cabe aos atores, eu pergunto: Quem disse? Em que momento da história da arte de representar ficou estabelecido que a nudez e a simulação de ato sexual são obrigações do ator? Que ator disse isso? Se alguém o disse, foi algum teórico vestido, algum diretor vestido, algum roteirista vestido; alguém que, sem a haver recebido, investiu-se da autoridade de o dizer. Esta obrigação não existe como um predicado do ofício, embora possa haver a possibilidade. Digo porque já fiz no teatro uma cena em que o personagem ia se despindo – cena que eu mesmo escrevi! – e também já fui constrangido a fazer cenas que não quis. Conheço a diferença. Quem me autoriza a falar sobre esse assunto sou eu mesmo e a minha história profissional. Falo do que conheço porque vivi.

Os jovens atores e atrizes precisam saber que há outro mundo possível, um outro modo de viver a profissão, onde os atores sejam senhores do seu trabalho. É com eles que eu estou falando.



Parte 2 - Falo com o público

O que eu tenho dito a respeito de a pornografia ter se disfarçado de entretenimento ou arte para participar da nossa vida comum, atendendo a interesses do negócio da comunicação de massa, com a conivência de alguns diretores e roteiristas, tem sido muito bem recebido pelo público. Ou, pelo menos, eu assim o tenho percebido. Ando nas ruas, e muitas pessoas têm vindo falar comigo. Até o momento em que escrevo este texto, o blog teve quase 20 mil entradas e uns 600 comentários, quase todos de apoio.

E isso me dá muita alegria porque a única opinião que me interessa é a do público. Nenhuma outra. É apenas com o público que eu falo; com a coletividade de pessoas que ele é; e não com o ego exacerbado dos que se consideram formadores de opinião (artistas, jornalistas, intelectuais, quem for). A opinião do público não precisa ser formada. O público é, para o artista que de fato tem contato com ele, a única fonte de toda verdade.

É com as pessoas que formam o silencioso e soberano público, é com elas que eu falo; e é a ele que eu estou atento. Saberemos, pela aceitação dele a estas minhas ponderações, quem esteve a falar sozinho, se eu ou os outros.

A minha vida profissional sempre foi assim, desde o meu começo no teatro com "Bar, Doce Bar", em 1982. Quem tem se aproximado do meu trabalho e me feito perseverar na profissão tem sido o público; e não a inteligência nacional. Faço teatro ininterruptamente há quase 30 anos, e televisão, há pelo menos 25; e o público tem sempre estado lá, e eu também.

(Um dos males que o descontrole da indústria de comunicação em massa produz no nosso tempo é fazer com que essa gente que se crê artista, e a imprensa que cobre as suas atividades, acredite que o público está interessado na exposição de suas vidas particulares e seus assuntos sem interesse. O haver em nós um anseio por conhecer a vida dos outros não é atendido por essa indústria de intimidades falsas. O que as pessoas querem é de fato conhecer um verdadeiro outro; e não esse falso outro produzido para ser atraente, diferente, exemplar, artista. O anseio é por realidade – num mundo que produz muitas ilusões dela – e não será atendido por uma simulação da vida real. Apesar de que, por algum tempo, alguns possam ter a impressão de que o será. O que tenho visto acontecer é ficarem os jornalistas escrevendo uns para os outros, os que se creem artistas fazendo o que creem ser arte uns para os outros, e o público assistindo, indiferente, a tudo isso. Quando surge um assunto verdadeiro, uma expressão artística verdadeira, o público se interessa. No mais, ele consome, numa passividade resistente, a inutilidade que lhe é oferecida como iguaria. Fazer o quê? Só há para comer o que está posto à mesa pelos meios de comunicação em massa.

Mas nem tudo é só isso! O haver um domínio da mediocridade não faz desaparecer o que de melhor a nossa vida cultural produz. Apenas torna muito árduo fazer com que ela apareça, visível, diante de nós. Mas ela aparece. Aparece, certamente, nas manifestações que não chegam aos meios de comunicação em massa e, eventualmente, aparece também em algumas que chegam a eles. Cito alguns exemplos, que são veiculados na televisão: o trabalho do jornalista Caco Barcellos e o de Regina Casé – sempre em companhia de Guel Arraes e Hermano Vianna–, o programa de Toni Belotto no canal Futura e alguns quadros do CQC, da Bandeirantes. E cito dois que estão nas ruas: o trabalho do grupo de teatro "Tá na Rua", do diretor, autor e ator Amir Haddad, e o Bando de Teatro do Olodum, de Salvador. E há outros, muitos outros!

Quando a pornografia disfarçada refluir, o melhor da nossa produção cultural contemporânea haverá de emergir, nítida e vigorosa, e ocupar o lugar que lhe é devido nos nossos meios de comunicação de massa.)

A pornografia se disfarçou de entretenimento ou arte para poder assim ser vendida no ambiente familiar, e atingir um número maior de pessoas. Para que a sua presença não ofendesse as casas e o convívio, ela teve que se disfarçar de uma outra coisa. Para tomar a aparência dessa outra coisa, ela se fez branda, discreta, suave, passando assim por entretenimento inocente; ou densa, profunda, intensa, assemelhando-se assim a uma obra de arte. Na pornografia evidente, que se assume como tal, as cenas de nudez e ato sexual são explícitas, como explícita é a intenção de estimular o anseio sexual; na pornografia disfarçada, essas mesmas cenas assumem um caráter dissimulado, como também dissimulada é a intenção de estimular o anseio sexual.

Então, eu diria que o primeiro e principal disfarce da pornografia nos meios de comunicação de massa é ser branda. Ela esconde-se na suavidade para evitar a sua evidência. Quão maior for o alcance do veículo que a expõe, maior tende a ser a discrição que a pornografia assume. Assim, na TV aberta, principalmente nos horários vespertinos, ela é sutil, já não o sendo tanto na TV fechada, e o sendo muito menos ainda no cinema.



Os modos de se abrandar a pornografia são tantos que eu, certamente, não darei conta de todos aqui, e deve mesmo haver alguns disfarces que me passam despercebidos.

São cenas de sexo e nudez em contra-luz, nas quais nada acontece; cenas de banho atrás da cortina translúcida do box, nas quais nada acontece além de a pessoa se lavar (claro que sensualmente, como nunca na vida), intermináveis cenas de beijo, nas quais nada acontece além de as pessoas se beijarem; cenas – e mesmo histórias inteiras – ambientadas em boates, prostíbulos, casas de massagem etc.

A pornografia também se disfarça de inocentes bailarinas ou charmosas assistentes em programas de auditório; assim como também em virginais pseudocomediantes seminuas em programas de humor; ou alegres e ingênuas apresentadoras de programa infantil, distraidamente sensuais; ou ainda em matérias jornalísticas sobre a sexualidade; desfile de moda íntima; pretensas enquetes sobre hábitos sexuais; enfim, uma infinidade de falsas cenas ou reportagens, vazias de acontecimentos, que nada são além de pretexto para se expor a pornografia disfarçada.

Em todas essas situações, e muitas outras, o pornógrafo pretende estar tratando de outros assuntos que não a pornografia. Mas o disfarce é fácil de ser revelado. Retire-se tais cenas de sexo ou nudez das histórias, dispensemos as bailarinas dos programas, ponham-se roupas nas comediantes e veremos que muito pouco sobra de interessante. Essas atrações dificilmente se sustentam sem a pornografia disfarçada, porque quase nada são além do disfarce dela.



Alguns desses disfarces, por serem os mais bem urdidos, merecem uma atenção especial.



Muito obrigado.

Pedro Cardoso






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