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Após desafio de Palocci, petistas podem ser tratados como cínicos. "Vão continuar fingindo que Lula é honesto?"



Em documento histórico, o ex-ministro Antonio Palocci sepulta definitivamente o cinismo dos petistas que ainda insistem em defender o indefensável. Como fundador do PT, auxiliar direto e administrador de negócios do ex-presidente Lula durante mais de 30 anos, Palocci está plenamente revestido da autoridade para dar um basta na farsa que perdura há mais de três décadas. A codificação da carta escrita por Palocci abaixo


Curitiba/PR, 26 de setembro de 2017.
Ao Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores
AIC Sra. Presidente GLEISI HOFFMANN

Senhora Presidente,

Soube pela imprensa da abertura do processo disciplinar pelo PT—RP,
bem como de minha suspensão pelo Diretório Nacional por 60 dias. Confesso
minha estranheza sobre o conteúdo do referido processo. Neste último período,
havia me preparado para enfrentar junto ao partido um procedimento de
natureza ética frente a recente condenação que sofri na 13ª Vara Federal de
Curitiba, pelo DD. Juiz Sérgio Femando Moro. Pensava ser normal que o
partido procurasse saber as razões que levaram a tal condenação e minhas
eventuais alegações. Mas nada recebi sobre isso.

Recebo agora as notícias de abertura de procedimento e'tioo em razão das
minhas declarações no interrogatório judicial ocorrido no último dia 06/09/2017,
sobre ilegalidades que cometi durante os governos de nosso partido.

O proadimento questiona minhas afirmações a respeito do ex—
Presidente Lula. Sobre isso, tenho a dizer que:

1) Há alguns meses decidi colaborar com a Justiça, por acreditar ser este
o caminho mais correto a seguir, buscando acelerar o processo em curso de
apuração de ilegalidades e de reformas na legislação de procedimentos públicos
e na legislação partidária-eleitoral, que reclamam urgente modernização.

2) Defendo o mesmo caminho para o PT. Há pouco mais de um ano tive
oportunidade de expressar essa opinião de uma maneira informal a Lula e Rui
Falcão, então presidente do PT, que naquela oportunidade transmitia uma
proposta apresentada por João Vaccari, para que o PT buscasse um processo de
leniência na Lava Jato.

3) Estou disposto a enfrentar qualquer procedimento de natureza ética
no partido sobre as ilegalidades que cometi durante nossos govemos, as razões
e as circunstâncias que me levaram a estes atos e, mesmo considerando a força
das contingências históricas, suportar pessoalmente as punições que o partido
julgar cabíveis.

4) Não vejo possibilidade, entretanto, de colaborar no processo aberto
pelo partido sobre minhas afirmações quanto às responsabilidades do ex—
Presidente Lula nas situações citadas por ocasião do interrogatório de
06/09/2017. Isso porque tais questões fazem parte do processo de negociação
com o MPF, e tal procedimento encontra—se envolto em sigilo legal. Foi por isso
que naquela oportunidade limitei—me a fatos relacionados àquele processo. Dito
isto, declaro minha disposição de responder aos questionamentos do partido
sobre qualquer tema, logo após os prazos legais.

5) De qualquer forma, quero adiantar que, sobre as informações
prestadas em 06/09/2017 (compra do prédio para o Instituto Lula, doações da
Odebrecht ao PT, ao Instituto e a Lula, reunião com Dilma e Gabrielli sobre as
sondas e a campanha de 2010, entre outros) são fatos absolutamente
verdadeiros. São situações que presenciei, acompanhei ou coordenei,
normalmente junto ou a pedido do eae—Presidente Lula. Tenho certeza que, cedo
ou tarde, o próprio Lula irá confirmar tudo isso, como chegou a fazer no
”mensalão", quando, numa importante entrevista concedida na França,
esclareceu que as eleições do Brasil eram todas realizadas sob a égide do caixa
dois, e que era assim com todos os partidos. Naquela oportunidade ele parou
por aí, mas hoje sabemos que e' preciso avançar na abertura da caixa preta dos
partidos e dos govemos, para o bem do futuro do país.

6) Ressalto que minha principal motivação nesse momento e' que toda a
verdade seja dita, sobre todos os personagens envolvidos.

7) Sob o ponto de vista político, estou bastante tranquilo em relação a
minha decisão. Falar a verdade e' sempre o melhor caminho. E, neste caso, não
posso deixar de registrar a evolução e o acúmulo de eventos de corrupção em
nossos governos e, principalmente, a partir do segundo governo Lula.

Vocês sabem que procurei ajudar no projeto do PT e do presidente Lula
em todos os momentos. Convivi com as dificuldades e os avanços. Sabia o
quanto seria difícil passar por tantos desafios políticos sem qualquer desvio
e'tico. Sei dos erros e ilegalidades que cometi e assumo minhas
responsabilidades. Mas não posso deixar de destacar o choque de ter visto Lula
sucumbir ao pior da política no melhor dos momentos de seu govemo. Com o
pleno emprego conquistado, com a aprovação do governo a níveis recordes,
com o advento da riqueza (e da maldição) do pré—sal, com a Copa do Mundo,
com as Olimpíadas, ”0 cara”, nas palavras de Barack Obama, dissociou-se
definitivamente do menino retirante para navegar no terreno pantanoso do
sucesso sem crítica, do "tudo pode", do poder sem limites, onde a corrupção, os
desvios, as disfunções que se acumulam são apenas detalhes, notas de rodapé
no cenário entorpecido dos petrodólares que pagarão a tudo e a todos.

Alguém já disse que quando a luta pelo poder se sobrepõe a luta pelas
ideias, a corrupção prevalece. Nada importava, nem mesmo o erro de eleger e
reeleger um mau governo, que redobrou as apostas erradas, destruindo, uma a
uma, cada conquista social e cada um dos avanços econômicos tão
custosamente alcançados, sobrando poucas boas lembranças e desnudando
toda uma rede de sustentação corrupta e alheia aos interesses do cidadão. Nós,
que nascemos diferentes, que fizemos diferente, que sonhamos diferente,
acabamos por legar ao país algo tão igual ao pior dos costumes políticos.

Um dia, Dilma e Gabrielli dirão a perplexidade que tomou conta de nos
após a fatídica rermião na biblioteca do Alvorada, onde Lula encomendou as
sondas e as propinas, no mesmo tom, sem cerimônias, na cena mais chocante
que presenciei do desmonte moral da mais expressiva liderança popular que o
país construiu em toda nossa história.

Enfim, e' por todas essas razões que não compreendo o processo aberto
agora. Enquanto os fatos me eram imputados e eu me mantive calado não se
cogitava minha expulsão. Ao contrário, era enaltecido por um palavrório vazio.
Agora que resolvo mudar minha linha de defesa e falar a verdade, me vejo
diante de um tribunal inquisitorial dentro do próprio PT. Qual o critério do
partido? Processos em andamento? Condenações proferidas? Se é este o critério,
o processo de expulsão não deveria recair apenas contra mim.

Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do "homem mais
honesto do país" enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e ate' o
prédio do Instituto (!!) são atribuídos a Dona Marisa?

Afinal, somos um partido político sob a liderança de pessoas de carne e
osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade?

Chegou a hora da verdade para nos. De minha parte, já virei essa página.
Ao chegar ao porto onde decidi chegar, queimei meus navios. Não há volta.
Depurar e rejuvenescer o partido, recriar a esperança de um exercício saudável
da politica será tarefa para nossos novos e jovens líderes. Minha geração talvez
tenha errado mais do que acertado. Ela está esgotada. E e' nossa obrigação abrir
espaço a novas lideranças, reconhecendo nossas graves falhas e enfrentando a
verdade. Sem isso, não haverá renovação.

E tenho razões ainda maiores. Nas últimas décadas, sempre me decidi
pelo PT, pela política, e minha família sempre aceitou, suportou e sofreu com
isso. Agora decidi pela minha família! E o fiz com a alma tranquila.

Desde que fundei o PT há 36 anos, em Ribeirão Preto com um grupo de
amigos, na sede do Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina, entre
1980/ 1981, dediquei-me totalmente ao partido, à política e a nossos governos.

Tive a honra e a felicidade de ser vereador e prefeito de minha cidade
por duas vezes. Tive a honra de servir aos governos de Lula e Dilma. Enfrentei
como Ministro da Fazenda uma das mais duras crises econômicas de nossa
história, mas a competência de meus assessores permitiu um trabalho com
fortes e duradouros resultados. Nunca supus que o governo tenha desandado
com minha saída em 2006. Na verdade, o caminho até a crise de 2008 foi, do
ponto de vista do projeto de desenvolvimento, de grande sucesso. Mas, como o
ovo da serpente, já se via, naqueles melhores anos, a peçonha da corrupção se
criando para depois tomar conta do cenário todo.

Coordenei várias campanhas eleitorais, em vários níveis e pude
acompanhar de perto a evolução de nosso poder e nossa deterioração moral.
Assumo toda as minhas responsabilidades quanto a isso, mas lamento dizer
que, nos acertos e nos erros, nos trabalhos honrados e nos piores atos de
ilicitudes, nunca estive sozinho.

Por isso concluo:

l) Continuo a apoiar a proposta de leniência do PT.

2) Após respeitar os prazos legais de sigilo quanto a minha colaboração
com a justiça, terei toda a disposição para esclarecer e depor perante o partido
sobre todos esses temas.

3) Com humildade, aceitarei qualquer penalidade aprovada. Mas ressalto
que não posso fazê—lo neste momento e neste formato proposto pelo partido
onde quem fala a verdade é punido e os erros e ilegalidades são varridos para
debaixo do tapete.

Por todas essas razões, ofereço a minha desfiliação, e o faço sem qualquer
ressentimento ou rancores. Meu desligamento do partido fica então à vossa
disposição.

Saudações cordiais,

ANTONIO PALOCCI
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