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Como funciona a escolha de um presidenciável no Brasil? Talvez você descubra que não entende nada de política



O Brasil vive mais uma vez uma pré-campanha presidencial. Neste momento, vários nomes despontam como alternativas para o povo decidir em quem votar. As opções parecem bastante desanimadoras, tendo em vista o que aconteceu com o país ao longo das últimas décadas em que esteve nas mãos da atual classe política.

Mas o jogo segue e milhões de brasileiros ainda não se deram conta de quais são as regras que prevalecem neste processo supostamente democrático que vai definir quem será o futuro mandatário do país. O cara que vai fingir que manda nos otários dos brasileiros. Sim. É justamente isso que está prestes a acontecer. Novamente.

Vamos às regras do jogo, propriamente ditas. Pode parecer surpreendente para muitos que, em meio à mais de 200 milhões de cidadãos, apenas alguns poucos merdas tenham a prerrogativa de concorrer ao cargo mais importante do país. Será que não existem ao menos uns 100 mil brasileiros bem mais competentes que essa gente?

Para entender melhor como tudo funciona toda a putaria, é preciso lembrar que o Brasil, assim como a maioria dos países democráticos, é signatário da Convenção Americana de Direitos Humanos, o Pacto de São José da Costa Rica, que não prevê a filiação partidária como requisito para ser votado. Apesar a Constituição exige que o candidato ao cargo de chefe do executivo seja registrado por um partido político:


CAPÍTULO II
DO PODER EXECUTIVO


SEÇÃO I
DO PRESIDENTE E DO VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA


     Art. 76. O Poder Executivo é exercido pelo Presidente da República, auxiliado pelos Ministros de Estado.

     Art. 77. A eleição do Presidente e do Vice-Presidente da República realizar-se-á, simultaneamente, noventa dias antes do término do mandato presidencial vigente.

      § 1º A eleição do Presidente da República importará a do Vice-Presidente com ele registrado.

      § 2º Será considerado eleito Presidente o candidato que, registrado por partido político, obtiver a maioria absoluta de votos, não computados os em branco e os nulos. (leia aqui).


É ai que está o pulo do gato dos sem vergonhas. Como os partidos políticos detém a prerrogativa exclusiva de lançar candidatos à Presidência da República. todos eles trabalham arduamente para forjar lideranças populares virtualmente capazes de angariar votos suficientes para vencer uma eleição. Trata-se de um trabalho que costuma consumir anos e anos de investimentos na imagem de um único sujeito, não necessariamente o mais competente, mas que tenha apelo popular e condições mínimas de participar de um debate.

Há décadas, partidos e políticos tentam se projetar como possíveis opções em alguma eleição qualquer para presidente. Há casos de políticos que investem neste projeto há mais de 20 anos, como Ronaldo Caiado, Ciro Gomes e outros que tentam se inserir no páreo há mais de uma década, como Marina Silva, José Sera, Geraldo Alkcmin e outros não menos insistentes.

Quando as eleições presidenciais se aproximam, é um deus nos acuda. Os partidos que não conseguiram projetar uma liderança decente vivem uma agonia para definir logo seu candidato e apresentar ao mercado, o verdadeiro senhor da eleição. De olho nas pesquisas de opinião, barões dos meios de comunicação, banqueiros e empresários poderosos convocam os favoritos para um 'cafezinho', um tête-à-tête para ajustar os ponteiros sobre a continuidade dos esquemas em vigor e a possibilidade de esquemas futuros mais promissores para ambas as partes. Logo que os nomes são definidos, todos os profissionais da imprensa são colocados para cobrir as agendas dos principais candidatos. Torna-se até cansativo ler entrevistas com presidenciáveis com ideias tão estúpidas, populistas ou absurdamente óbvias. São meros atores, seres amestrados para repetir frases de efeito boladas por marqueteiros diabólicos. É quando entram os institutos de pesquisa para terminar o serviço sujo de projetar os "campeões de votos". Na medida em que conseguem sedimentar os nomes escolhidos, divulgam pesquisas direcionadas que acabam por influenciar o eleitor na hora do voto.

Enquanto isso, o cidadão segue totalmente alheio a todo este processo, acreditando piamente que será capaz de decidir alguma coisa ou interferir de alguma forma no destino do país em que vive. Muitos não se dão conta de que se trata de um jogo previamente combinado, inclusive com a inclusão de candidatos ridículos, sem a menor chance. É como colocar um produto de péssima qualidade e caro ao lado de um produto excelente mais barato na mesma gondola do supermercado. Uma forma ónvia de induzir o consumo.

Mas as tragédias não param por aí. Ao descer de pára-quedas em Brasília, o novo presidente da República irá se deparar com uma coisa chamada Congresso Nacional. Na maioria das vezes, o presidente eleito é um bicho totalmente estranho a este habitat e vai precisar beber água no mesmo manancial dominado por outros bichos bem mais espertos. O povo brasileiro está calejado de sentir na pele as consequências deste jogo sem pé e sem cabeça. Não é por acaso que praticamente nenhum dos presidentes das últimas décadas conseguiram aprovar reformas importantes, como a reforma trabalhista, a limitação do teto dos gastos da União, a reforma política e a reforma da previdência.

Um presidente que se elege sem maioria no Congresso, normalmente a maioria se elege nestas condições, vai comer o pão que o diabo amassou para cumprir as promessas que fez para seus financiadores. As poucas que fez para o povo são irrelevantes. Ao assumir o cargo, precisará comer nas mãos de deputados e senadores, terá que dançar conforme a música e atender aos interesses mais distantes de tudo aquilo que havia se comprometido, caso queira aprovar qualquer projeto. Normalmente no Brasil, os bichos que se elegem para cargos executivos são de outra espécie, estranha aos bichos que comandam o Congresso. Fernando Collor de Mello que o diga. Não conseguiu criar uma 'sintonia' com o parlamento, mas ousou montar esquemas paralelos ao poder. Deu no que deu. O candidato projetado pela própria Rede Globo como "O caçador de Marajás" sucumbiu em meio à fauna exótica e voraz do Congresso Nacional.

Fernando Henrique Cardoso, projetado por Itamar Franco como "O pai do Plano Real"  foi mais esperto. Manhoso, atendeu aos interesses mais diversos, fez concessões e comprou apoio para o projeto da reeleição e ainda se comprometeu a levar Lula ao poder ao final de seu segundo mandato. Tanto é que Fernando Henrique não se preocupou em projetar seu candidato José Serra, nem participou da campanha.

Lula, que já vinha sendo projetado há mais de 20 anos por todos os setores da esquerda brasileira, incluindo ai os artistas, intelectuais, sindicalistas e líderes de movimentos sociais, passou a contar com as bençãos do próprio Fernando Henrique, da Globo e dos barões do sistema financeiro nacional.

Os poderosos sabiam que Lula já havia se projetado na preferência do eleitorado e acabaram o chamando para um 'cafezinho. O petista bem que tentou imitar Fernando Henrique no trato com o Congresso, mas a resistência ao seu nome e a sua turma de gafanhotos o impediram de levar tudo na maciota, como seu antecessor. O petista foi obrigado a desenvolver uma gigantesca engenharia de esquemas criminosos para conseguir dinheiro para comprar apoio político no Congresso durante seu primeiro mandato. O esquema vazou pela boca do então deputado Roberto Jefferson e Lula teve que transformar sua quadrilha em organização criminosa para conseguir sobreviver ao escândalo que ficou conhecido como mensalão.

A profissionalização do PT na arte de desviar dinheiro público transformou o partido em uma verdadeira universidade do crime e Lula acabou levando para Brasília a pior geração de políticos de que se tem notícia na história do país. Com a alta das commodities no mercado internacional a partir de 2007, havia dinheiro para comprar partidos inteiros, como o PMDB, PP e até mesmo o PSDB. A coisa fluiu tão bem que Lula conseguiu projetar um poste chamado Dilma Rousseff como "A mãe do PAC" . O petista gozava de uma popularidade tão alta que acabou conseguindo eleger o poste.

Em seu primeiro mandato, Dilma ainda contou com um Congresso culturalmente conivente com o modo de Lula governar e não teve muita dificuldade em manter o ritmo do jogo durante mais da metade do mandato. A coisa começou a degringolar quando o preço das commodities despencou no mercado internacional e começou a faltar grana para contemplar os interesses daqueles que haviam criado uma bela pança mamando nas tentas da União. O PT teve que apostar tudo na reeleição de Dilma em 2014. Roubaram e mentiram como se o mundo fosse acabar amanhã para vencer aquela eleição por muito pouco.

O problema é que havia ocorrido uma tímida mas perigosa renovação na fauna do Congresso e Dilma era um bicho muito arredio para ser domesticado. Desprovida de qualquer talento para a articulação política, a petista ainda ousou resolver questões à sua própria maneira e apostou na contabilidade criativa para mascarar o rombo nas contas públicas. Astutos, os bichos do Congresso farejaram a cagada. Reuniram a mandada e partiram  para cima da anta para devorar sua carcaça.

A exemplo do que ocorreu com Fernando Collor, o jogo foi interrompido antes do início do segundo tempo. Todos se reuniram nos bastidores para se certificar de seguir as regras e votaram para o campo com o presidente Michel Temer. Foi ai que o caldo desandou.

Os partidos e grupos poderosos se deram conta de que não haviam projetado praticamente nenhum nome capaz de suceder Temer ao final de seu mandato transitório em 2018. Para piorar a situação, um outsider havia conseguido se esgueirar pelos flancos dos outros jogadores e se auto projetou para a sucessão presidencial. O nome de Jair Bolsonaro começou a aparecer perigosamente nas pesquisas de opinião e apresentava potencial para crescer ainda mais. João Doria foi outro que furou a fila dos candidatos projetados e que ainda não tinha a confiança dos barões do país. Com Lula praticamente fora do páreo e a população cansada dos nomes fabricados pelos partidos e meios de comunicação ao longo da última década, como Marina Silva, Ciro Gomes e Geraldo Alckmin, era preciso fazer algo urgentemente para projetar um homem de "confiança" para 2018. A saída encontrada foi tentar derrubar o presidente Michel Temer.

Tudo parecia muito fácil na cabeça dos arquitetos dos destinos do Brasil. Temer apresentava baixíssimos índices de aprovação popular e a sociedade estava bastante entusiasmada com a ideia do combate à corrupção. Bastava armar uma cilada para o presidente, envolvê-lo em uma trama criminosa, disponibilizar o aparato dos meios de comunicação para pedir sua renúncia e convocar a população de volta às ruas. Tudo muito simples e rápido.

Caso tudo tivesse corrido como planejado, Temer cairia e o Congresso elegeria um novo presidente, devidamente filiado a algum partido político. Os nomes favoritos nos bastidores da trama eram os do Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles e do ex-ministro da Justiça, Nelson Jobim. Qualquer um que assumisse o lugar de Temer contaria com a simpatia dos meios de comunicação, do mercado e dos partidos. Com a máquina pública na mão, seria fácil se projetar como a melhor opção para 2018. No dia seguinte, o eventual sucessor de Temer apareceria na Globo se gabando da geração de empregos, da queda da inflação, dos juros e da retomada do crescimento. Celebrado nos jornais e canais de TV, teria seu nome exaltado e apontado como o responsável pela superação da maior crise política e econômica do país.

Na foto, o então ministro Pedro Parente entrega ao então
Presidente da Câmara, Michel Temer, o texto
da Lei de Responsabilidade Fiscal
Em tese, o plano que contou com a participação do Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de ministros do Supremo Tribunal Federal, de setores da esquerda e até dos criminosos da JBS, tinha tudo para dar certo. Mas os gênios que planejaram forjar um presidente para 2018 não contavam com um pequeno detalhe: Temer é um bicho do Congresso. Diferentemente de todos os presidentes que o Brasil já teve, Temer tem mais de vinte anos de vivência nos corredores do Congresso e já foi presidente da Câmara dos Deputados por três vezes. Foi Temer que ajudou Fernando Henrique Cardoso a aprovar projetos importantíssimos para o país, como o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Os articuladores da manobra para derrubar o governo subestimaram o fato de Temer ser "O senhor do Congresso" que conseguiu colocar fim a quase uma década e meia do reinado do lulopetismo. No dia 17 de maio de 2017, a Rede Globo colocou em prática aquele que se tornou o maior fracasso da emissora em suas interferências na vida política do país. E quando todos esperavam um pronunciamento de um combalido Michel Temer comunicando sua renúncia, conforme pediam todos os meios de comunicação do país, surge em rede nacional um bicho do Congresso com sua juba arrepiada dizendo que não renunciaria. Foi ai que o caldo desandou de vez. Temer, confiante em sua liderança e força, respondeu com firmeza surpreendente à interferência inusitada no processo democrático. "O Senhor do Congresso" simplesmente peitou as forças mais poderosas da nação e colocou de joelhos a Rede Globo, a PGR e o STF. Para piorar o vexame dos arquitetos da manobra, a população não foi para as rua pedir sua renúncia.

Ao contrário de seus antecessores, Temer tem poder e influência política onde mais interessa sob o ponto de vista prático. Graças a sua facilidade de interlocução com o Congresso, o presidente tem conseguido aprovar reformas históricas que vão ajudar o país não apenas a sair da crise, como também permitirá que futuros presidentes governem um país com a máquina pública mais enxuta, com mais folga no orçamento. Esta é basicamente a diferença entre ter um presidente "projetado" e um presidente produto do meio em que governa, filho da mesma selva em que reina. É pena que entre os nomes fabricados para a sucessão presidencial de 2018, não exista nenhum com esta capacidade.

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