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Após chilicão vergonhoso, Cármen Lúcia se lembrou que existem regras básicas de convivência entre os poderes



A presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, protagonizou um papelão ao adotar uma postura nada republicana ao divulgar uma nota repudiando um suposto gesto do governo publicado na revista Veja. A matéria sugere que o governo teria acionado a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) para investigar o ministro Edson Fachin. No lugar de se dirigir ao presidente da República para esclarecer os fatos, Cármén Lúcia preferiu promover mais um estardalhaço na imprensa ao divulgar uma nota baseada em fofocas da Veja.

Na nota, a própria Cármen Lúcia confere à reportagem seu verdadeiro caráter ao falar que "possível devassa" contra Fachin é 'própria de ditaduras'. Agindo de forma extremamente corporativista, Cármen Lúcia faz questão de colocar mais lenha na fogueira, mesmo salientando que não há nada de concreto na reportagem da Veja, que pode ter sido plantada por mais um dos que querem ver o circo pegar fogo: "A se confirmar tal atentado aos Poderes da República e ao Estado Democrático de Direito, ter-se-ia mais um infeliz episódio da grave crise de representatividade pela qual passa o país. Em vez de fortalecer a democracia com iniciativas condizentes com os anseios dos brasileiros, adotam-se práticas de um Estado de exceção.". Cármen Lúcia parece não ter se dado conta de que estava sendo protagonista  de "mais um infeliz episódio da grave crise de representatividade pela qual passa o país"

Ao ser informado na sexta-feira sobre a matéria da Veja, Temer reagiu com nítida indignação: "Eu quero desmentir aquela coisa bárbara, aquilo jamais foi pensado por mim, vamos manter a serenidade absoluta e a tranquilidade, vamos continuar pacificando o país".

Elegante e sempre zeloso com o equilíbrio das instituições, o presidente Michel Temer ligou para a ministra para informar que jamais seria capaz de recorrer a este tipo de artificio e se dispôs a prestar qualquer tipo de esclarecimento sobre os fatos.

Até este ponto, nota-se que a iniciativa de manter o equilíbrio entre as instituições partiu de Temer. Apesar de demonstrar respeito pela ministra Cármen Lúcia, a presidente do STF fez questão de acentuar o desgaste do governo promovendo um "barraco" em público e divulgou uma nota extremamente abusada no dia seguinte, mesmo ciente de que tudo não pode ter passado de mais uma intriga para enfraquecer o governo.

"O STF repudia, com veemência, espreita espúria, inconstitucional e imoral contra qualquer cidadão e, mais ainda, contra um de seus integrantes, mais ainda se voltada para constranger a Justiça."

"Se comprovada a sua ocorrência, em qualquer tempo, as consequências jurídicas, políticas e institucionais terão a intensidade do gravame cometido, como determinado pelo direito", ameaçou a ministra antes mesmo de tomar ciência dos fatos.

Por outro lado, a ministra Cármen Lúcia sabe muito bem que o ministro Edson Fachin chegou ao cargo de ministro do STF graças à ajuda de Ricardo Saud, um dos diretores da JBS. Isto sim é um fato. A JBS era a empresa com o maior número de parlamentares eleitos. A indicação de Fachin para o STF dependia dos votos de senadores. Diante de tantas evidências, o próprio Edson Fachin reconheceu que pediu ajuda “ao pessoal da JBS” em 2015 para ser nomeado ministro. O ministro usou até mesmo os jatinhos da JBS em sua peregrinação por votos.

O temor excessivo de Cármen Lúcia e de Rodrigo Janot de que uma hipotética investigação da Abin poderia revelar algo de realmente podre na relação de seu colega Fachin com os criminosos da JBS, beneficiados pela delação indecente homologada pelo próprio Fachin, revela que a ministra é tão podre quanto aqueles que acusa sem ter provas.

Diante dos fatos, é mais provável que Fachin tenha realmente favorecido os bandidos da JBS ao homologar o mais indecente acordo de delação premiada da história do Supremo do que Temer ter acionado a Abin para investigá-lo.

Para os brasileiros, em meio a tantos mentirosos, pouco importa de onde saiu a verdade, desde que ela venha à tona, seja através de uma gravação clandestina, de um grampo ilegal ou através dos arapongas da Abin. No Brasil dos dias de hoje, a verdade não representa nenhum ataque ao Estado Democrático de Direito, mas sim uma oportunidade para revelar a verdadeira face daqueles que se apropriam do Estado para defender seus próprios interesses.

Nesta segunda-feira, Cármen Lúcia voltou atrás em seu rompante autoritário e corporativista e reconheceu que deve haver respeito e diálogo entre as instituições e divulgou a seguinte nota:

"A Ministra Presidente do Supremo Tribunal Federal não adotará qualquer providência sobre a notícia de que estaria havendo escuta ou medida irregular contra Ministros do Supremo O Presidente da República garantiu não ter ordenado qualquer medida naquele sentido. Não há o que questionar quanto à palavra do Presidente da República. Portanto, o tema está, por ora, esgotado."
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