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Editorial do Estadão escancara manobra suja da Globo e de sites de operadores de mercado para lucrar com o caos



O jornal Estadão publicou um duro editorial no qual condena o vazamento truncado de trechos da delação do empresário Joesley Batista. A Globo e outros sites que pertencem a operadores do mercado financeiro, como O Antagonista, que tem participação de 50% da Empiricus, exploraram exaustivamente os trechos divulgados erroneamente pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo. A notícia falsa provocou uma queda recorde na bolsa de valores e a maior valorização do dólar em 14 anos em um único dia. A própria JBS foi uma das empresas que compraram volumes monstruosos da moeda no dia anterior ao vazamento.

A notícia veiculada por Lauro Jardim, em O Globo informava que Joesley Batista teria dito a Temer explicitamente que pagava R$ 500 mil para silenciar Eduardo Cunha. O colunista publicou, novamente de forma explícita, que o empresário afirmava a Temer que estava tendo problemas com o Cade. Mas as gravações originais não mostraram nada disso. Após a divulgação do aúdio, toda a imprensa nacional reconheceu que não há absolutamente nada conclusivo sob o ponto de vista jurídico e que houve sim má fé por parte da Globo e de sites de operadores financeiros na divulgação das notícias falsas.

O ganho da JBS com a compra de dólares na última quarta-feira, 17, no mercado é mais que suficiente para a companhia quitar a multa fechada no âmbito do acordo de leniência. Se a cifra foi de US$ 750 milhões e há quem diga que chegou a US$ 1 bilhão somente ontem, o resultado foi de US$ 170 milhões, considerando a alta da moeda americana nesta quinta-feira, 18.

A Polícia Federal possui as gravações há mais de 70 dias e não determinou nenhum tipo de investigação contra Temer. Mas há no STF um grande receio quanto a reforma da previdência promovida pelo atual governo. Setores inteiros do judiciário se mobilizam nos bastidores do poder para frear o avanço da reforma previdenciária. Pelo visto, o interesse no vazamento truncado e seletivo tinha outros propósitos, além de provocar o caos no mercado financeiro.

Acompanhe abaixo a íntegra do Editorial do Estadão:

"Este grave momento da vida nacional deverá passar à história como aquele em que a irresponsabilidade e o oportunismo prevaleceram sobre o bom senso e sobre o interesse público. Tudo o que se disser agora sobre os desdobramentos do terremoto gerado pela delação do empresário Joesley Batista, em especial no que diz respeito ao presidente Michel Temer, será mera especulação. Mas pode-se afirmar, sem dúvida, que a crise é resultado de um encadeamento de atitudes imprudentes, tomadas em grande parte por gente que julga ter a missão messiânica de purificar a política nacional. A consequência é a instabilidade permanente, que trava a urgente recuperação do País e joga as instituições no torvelinho das incertezas – ambiente propício para aventureiros e salvadores da pátria.

O vazamento de parte da delação do empresário Joesley Batista para a imprensa não foi um acidente. Seguramente há, nos órgãos que têm acesso a esse tipo de documento, quem esteja interessado, sabe-se lá por quais razões, em gerar turbulência no governo exatamente no momento em que o presidente Michel Temer parecia ter arregimentado os votos suficientes para a difícil aprovação da reforma da Previdência. Implicar Temer em uma trama para subornar o deputado cassado Eduardo Cunha a fim de mantê-lo calado, como fez o delator, segundo o pouco que chegou ao conhecimento do público, seria suficiente para justificar seu afastamento e a abertura de um processo contra o presidente – o Supremo Tribunal Federal já autorizou a instauração de inquérito.

É preciso destacar, no entanto, o modus operandi do vazamento. A parte da delação que foi divulgada não continha senão fragmentos de frases transcritas de uma gravação clandestina feita por Joesley Batista em uma conversa com Temer. Não se conhecia o contexto em que o diálogo se deu, porque a gravação não foi tornada imediatamente pública. Durante as horas que se seguiram à divulgação da existência do explosivo material, mesmo que não se soubesse o exato teor do que disse Temer, criou-se um fato político gravíssimo. A demora em tornar pública a gravação se prestou, deliberadamente ou não, a prejudicar o acusado, encurralando-o. A versão que certamente interessava ao vazador, portanto, se impôs.

Até mesmo uma conversa informal, na qual Temer teria confidenciado a Joesley Batista que a taxa de juros estava para cair – o que qualquer pessoa medianamente inteirada da conjuntura já imaginava –, está sendo interpretada como tráfico de informação privilegiada. O Banco Central informou o óbvio – que não há possibilidade de que Temer tenha tido conhecimento antecipado de uma decisão sobre juros –, mas, num momento em que o debate político se resume ao disse que disse frívolo das redes sociais, prevalece não a verdade, mas o rumorejo.

Não é de hoje que há vazamentos desse tipo – e isso só pode ser feito por quem tem acesso privilegiado a documentos sigilosos. Ao longo de toda a Operação Lava Jato, tornou-se corriqueira a divulgação de trechos de depoimentos de delatores, usados como armas políticas por procuradores. O vazamento a conta-gotas das delações dos executivos da Odebrecht que envolvem quase todo o Congresso Nacional, mantendo o mundo político em pânico em meio a especulações sobre o completo teor dos depoimentos, foi um claro exemplo desse execrável método.

Enquanto isso, fica em segundo plano o fato de que Joesley Batista e outros delatores sairão praticamente livres, pagando multas irrisórias, embora tenham cometido – e confessado! – cabeludos crimes. Para honrar tão generoso acordo com o Ministério Público, o empresário saiu por Brasília a armar flagrantes, com gravador escondido no bolso, a serviço dos que pretendem reformar a política na marra.

Nesse clima de fim de mundo, revoam os urubus. Parlamentares e líderes políticos, uns mais criativos que outros, propõem as soluções mais estapafúrdias para uma crise que só existe porque grassa a insensatez entre aqueles que deveriam preservar a estabilidade no País.

Resta demandar que a Constituição não seja rasgada ao sabor das conveniências daqueles que lucram com o caos".
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