\imprensa Viva
.

Sérgio Moro costuma deixar a melhor parte para o final. Depoimento de Léo Pinheiro vem com par de algemas para Lula



Enquanto os advogados do ex-presidente Lula comemoram o fato de que o depoimento de testemunhas periféricas do caso do triplex no Guarujá não tenham ainda incriminado o petista, o juiz Sérgio Moro mantém o ritmo previsto para o julgamento da ação penal. O magistrado aguarda pacientemente o desenrolar de alguns eventos para começar a intimar aquelas testemunhas que podem verdadeiramente esclarecer os fatos em torno da aquisição e reforma da cobertura de luxo no litoral paulista.

Entre os novos depoentes que já ajudaram a selar o destino de Lula, está o do ex-zelador do condomínio, José Afonso Pinheiro. Questionado se Lula esteve no prédio, Pinheiro disse que viu o ex-presidente lá. Segundo ele, Lula chegava normalmente em dois carros com seguranças que ‘prendiam’ o elevador para a família, o que provocava reclamações de outros moradores.
O zelador contou, ainda, que a OAS ‘limpava o prédio, colocava flores para receber a família do ex-presidente’.
Segundo ele, um funcionário da empreiteira lhe pediu que não falasse que o apartamento era de Lula e da mulher, ‘mas da OAS.

Na ocasião em que prestou depoimento ao juiz Sérgio Moro, José Afonso Pinheiro foi provocado pelos advogados de defesa de Lula, que quiseram saber se ele havia se "aproveitado" da fama repentina adquirida a partir de seu depoimento sobre o caso para se lançar candidato a vereador. O ex-zelador se irritou e chamou advogados de ‘lixo’.

 "Você não sabe o que que é uma pessoa tá desempregada, passando por uma dificuldade terrível, entendeu?  O desemprego tá altíssimo por causa de que eu fui envolvido numa situação que eu não tenho culpa nenhuma. Eu perdi o meu emprego, eu perdi a minha moradia, aí você vem querer me acusar, falar alguma coisa contra mim? O que você faria nessa situação, como você sustentaria sua família?", questionou José Afonso, que perdeu o emprego após prestar seu primeiro depoimento sobre o caso.

"Não seu José Afonso, eu não estou acusando o senhor" tentou se esquivar o advogado de Lula.

José Afonso: "Você nunca passou por isso, quem é você para falar alguma coisa contra mim? Posso falar o que vocês são? Vocês são um bando de lixo! Lixo!"

O depoimento da engenheira civil da OAS Mariuza Aparecida da Silva Marques foi outro momento marcante do julgamento da ação penal contra o ex-presidente Lula,

A funcionária da relatou estar no imóvel no dia em que Marisa Letícia e o filho Fábio Luís Lula da Silva foram visitar o tríplex, junto com o arquiteto da OAS Paulo Gordilho, o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, e outros representantes da empreiteira e da Tallento Engenharia, que foi contratada pela OAS para fazer a reforma no apartamento.

O procurador perguntou a Mariuza se Marisa Letícia estava sendo tratada pela OAS "como uma pessoa que poderia vir a adquirir o imóvel ou como uma pessoa que já havia adquirido".
Discussão

Neste momento, os advogados de Lula e de Marisa Letícia pediram para que o juiz indeferisse o questionamento, pois, para eles, o procurador estava pedindo a opinião da testemunha. O juiz federal Sérgio Moro, responsável pelos processos da Operação Lava Jato na primeira instância, alegou que a defesa está sendo inconveniente. *Veja no vídeo acima a discussão.

"Você não pode cassar a palavra da defesa", disse um dos advogados. Sérgio Moro afirmou que pode e pediu para que o advogado respeitasse o Juízo.

"Eu não respeito Vossa Excelência enquanto você não me respeita como defensor (...) Vossa Excelência tem que me respeitar como defensor do acusado, aí então Vossa Excelência tem o respeito que é devido à Vossa Excelência (...) mas se Vossa Excelência atua aqui como acusador principal, Vossa Excelência perde todo o respeito", falou uma dos advogados.

Discussões entre a defesa de Lula e Sérgio Moro já foram registradas em outras audiências da Operação Lava Jato.

O juiz federal então voltou a repetir que o pedido da defesa foi indeferido e pede que a testemunha responda à pergunta formulada pelo MPF.

"Ela era tratada como uma adquirente potencial ou uma pessoa para qual o imóvel já havia sido destinado?", questionou o Sérgio Moro.

"Tratado como se o imóvel estivesse sido destinado", afirmou Mariuza.

O engenheiro Armando Dagre, sócio-administrador da Talento Construtora, também declarou ao Ministério Público de São Paulo que ‘praticamente’ refez o triplex 164 A, no Condomínio Solaris, em Guarujá, no litoral de São Paulo – imóvel que a Promotoria suspeita pertencer ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A reforma, contratada pela empreiteira OAS, alvo da Operação Lava Jato, custou R$ 777 mil, segundo Dagre. Os trabalhos foram realizados entre abril e setembro de 2014.

Armando Dagre disse que o contrato com a OAS para reforma do triplex incluiu novo acabamento, além de uma outra piscina, mudança da escada e instalação de elevador privativo que custou R$ 62,5 mil. Ele disse que não teve nenhum contato com Lula, mas com a ex-primeira dama, Marisa Letícia.

Contou que, um dia, estava reunido com o representante da OAS no apartamento ‘quando Marisa adentrou o apartamento com um rapaz e dois senhores’ e que só depois soube que os acompanhantes da mulher de Lula eram um filho do casal, Fábio Luiz, um engenheiro da OAS e o dono da empreiteira, Léo Pinheiro – condenado na Lava Jato a 16 anos de prisão por corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

“Em verdade tomou um susto quando vislumbrou a dona Marisa Letícia ingressando no meio da reunião existente no interior do apartamento”, disse Armando Dagre.

Ele disse que a ex-primeira dama ‘os cumprimentou’. “Ela estaria conhecendo o apartamento, tendo, inclusive, ressaltado a vista (para o mar).”

Mas o depoimento mais devastador está sendo reservado para o final. Caberá ao próprio Léo Pinheiro, amigo de Lula desde os anos 90, esclarecer todos os fatos envolvendo o repasse do imóvel ao ex-presidente. Delator na Lava Jato, Pinheiro já confirmou aos procuradores da República que o imóvel era sim uma forma de repassar propina a Lula de forma dissimulada.

Segundo o ex-presidente da OAS, tríplex  seria abatido das propinas que a empreiteira tinha de pagar ao PT por obras na Petrobras, disse o executivo a investigadores da Lava Jato.

"Ficou acertado que esse apartamento seria abatido dos créditos que o PT tinha a receber por propinas em obras da OAS na Petrobras", disse Pinheiro, sobre conversa com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto em 2010.

"Nesse contato, perguntei para Vaccari se o ex-presidente Lula tinha conhecimento do fato, e ele respondeu positivamente [...]", completou.

Pinheiro afirmou ainda que a reforma feita no tríplex pela OAS "não seria cobrada do ex-presidente", porque seria abatida "também como uma retribuição dos serviços prestados por Lula com a OAS na área internacional".

Da mesma forma, disse, ficou "implícito que a OAS atuaria e seria remunerada com o abatimento dos créditos com o PT e em retribuição ao serviço prestado por Lula em favor dos negócios internacionais da empresa".

Pinheiro disse ainda que contratou Lula para uma palestra na Costa Rica, em 2011, por US$ 200 mil. A OAS tinha interesses no país e Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, havia dito que o petista poderia "influenciar autoridades locais em prol dos negócios da OAS".

Após a palestra, segundo Pinheiro, Lula o levou a um jantar com a então presidente Laura Chinchilla.

Em outra parte do acordo de delação, o empreiteiro disse que pagou caixa dois à campanha de Dilma em 2014, por meio de contrato fictício com a agência de comunicação Pepper.

Foram três parcelas de R$ 239,3 mil, segundo Pinheiro —valor solicitado pelo então tesoureiro Edinho Silva "para o pagamento de despesas da campanha".

Por fim, Pinheiro disse que, a pedido de Okamotto, custeou a armazenagem dos objetos retirados por  Lula a partir de 2010 dos Palácios do Planalto e Alvorada —quando ele ainda era presidente—, em troca de ajuda para a OAS no exterior. Os custos com transporte e armazenagem dos 14 caminhões do objetos ficou em torno de R$ 1.3 milhões. Esta investigação também integra a ação penal sobre o triplex no Guarujá.

Léo Pinheiro foi condenado a 16 anos de prisão e pediu para não ser solto por temer pela própria vida. Segundo fontes da Lava Jato, o ex-executivo está consciente de que deve escolher entre apodrecer na prisão ou entregar Lula. Léo Pinheiro não hesitou e optou pela segunda opção.

A denúncia contra o ex-presidente Lula abrange três contratos da OAS com a Petrobras. As acusações são de que Lula recebeu cerca de R$ 3,7 milhões em propinas por estas contratos. Para os procuradores do Ministério Público Federal (MPF), a propina se deu por meio da reserva e reforma do apartamento triplex, em Guarujá, e do custeio do armazenamento dos objetos trazidos de Brasília.

Lula responde por corrupção passiva e lavagem de dinheiro nesta ação penal. As oitivas com as testemunhas de defesa devem se estender até março deste ano. Ao todo, 70 pessoas foram arroladas.

Segundo juristas especializados na área de Direito Penal, Moro tem sido bastante eficiente na condução dos processos sob sua responsabilidade, tanto em relação aos pedidos de prisão preventivas quanto as condenações que tem imputado aos réus. Após condenar mais de 80 criminosos no âmbito da Lava Jato, o magistrado já ficou marcado por uma característica bastante peculiar: a parte irrefutável dos processos fica sempre para o final.


_____________
__________

Postar um comentário

Todas as notícias

Siga no Facebook

MKRdezign

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget